domingo, 7 de novembro de 2010

Sophia de Mello Breyner Andresen

As rosas






Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes,

Todo o fulgor das tardes luminosas,

O vento bailador das Primaveras,

A doçura amarga dos poentes,

E a exaltação de todas as esperas.



Sophia de Mello Breyner Andresen,

in"Cem Poemas De Sophia"

Vergílio Ferreira

Que Há para Lá do Sonhar?




Céu baixo, grosso, cinzento

e uma luz vaga pelo ar

chama-me ao gosto de estar

reduzido ao fermento

do que em mim a levedar

é este estranho tormento

de me estar tudo a contento,

em todo o meu pensamento

ser pensar a dormitar.



Mas que há para lá do sonhar?



Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

André Malraux -FRAGMENTO

O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.




«Tchen recordou-se de Gisors: "À beira da morte, uma tal paixão aspira transmitir-se...". De súbito, compreendeu. Suan também compreendia:

- Tu queres fazer do terrorismo uma espécie de religião?

A exaltação de Tchen tornava-se maior. Todas as palavras eram vazias, absurdas, impotentes, para exprimir o que queria deles.

- Não uma religião. O sentido da vida. A... posse completa de si próprio. Total. Absoluta. A única. Saber. Não procurar, constantemente, ideias e deveres. Há uma hora que já não sinto coisa alguma de que pesava sobre mim. Estão a ouvir? Nada.

Agitava-o uma tal exaltação que já não procurava convencê-los, senão falando-lhes de si:

- Estou de posse de mim próprio. Mas nem uma ameaça, nem uma angústia, como sempre. Dominado, apertado, como esta mão aperta a outra (apertava-a com toda a força). Ainda não basta, como...

Apanhou do chão um dos bocados de vidro da lanterna quebrada. (...) Com um gesto, enterrou-o na coxa. A sua voz entrecortada estava penetrada de uma certeza selvagem, mas parecia muito mais dominar a sua exaltação do que ser dominado por ela. Nada louco. Os outros dois mal o viam já e, contudo, ele enchia o compartimento. (...)

- Pelos nossos, nada podes fazer de melhor que decidir-te a morrer. Nenhum homem pode ser tão eficaz como aquele que assim escolheu.»



«-... Não acha que é de uma estupidez característica da espécie humana que um homem que só tem uma vida possa perdê-la por uma ideia?

- É muito raro que um homem possa suportar, como hei-de dizer, a sua condição de homem. 



Pensou numa das ideias de Kyo: tudo aquilo porque os homens aceitam deixar-se matar, para além do interesse, tende mais ou menos confusamente a justificar essa condição, fundamentando-a na dignidade: cristianismo para o escravo, nação para o cidadão, comunismo para o operário. (...)

- É sempre preciso intoxicarmo-nos: este país com o ópio, o Islão com o haxixe, o Ocidente com a mulher... Talvez o amor seja sobretudo o meio que o ocidental emprega para se libertar da sua condição de homem...»





André Malraux (1901-1976)

excerto de A Condição Humana

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Yttérbio Homem de Siqueira

'SALMO DO INSTANTE IV'






Momento, cor sem essência ,

resumido em larga dispersão.

Sobra de outros sonhos

impossíveis à nossa lentidão.



Fulcro da vida, ergue-se no espaço

desatinado. Logo mais declina

em profundo arquejo de cansaço.



Momento, um leve rastro apenas

desse lampejo cósmico pertinaz

que é o tempo em plena floração.





Yttérbio Homem de Siqueira

em Abismo Intacto -1.983

CECILIA MEIRELES

'Anatomia'




É triste ver-se o homem por dentro:

tudo arrumado, cerrado, dobrado

como objetos num armário.





A alma, não.





É triste ver-se o mapa das veias,

e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios

como por obscuras aldeias

indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.





Mas a alma?





É triste ver-se a elétrica floresta

dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,

para a inquieta brisa da voz,

para esses ninhos contorcidos do pensamento.





E a alma?





É triste ver-se que de repente se imobiliza

esse sistema de enigmas,

de inexplicado exercício,

antes de termos encontrado a alma.





Pela alma choramos.

Procuramos a alma.

Queríamos alma.





Agosto, 1959







Cecília Meireles

In: O Estudante Empírico (1959-1964)

CECILIA MEIRELES

Cantar




Cantar de beira de rio:

Agua que bate na pedra,

pedra que não dá resposta.



Noite que vem por acaso,

trazendo nos lábios negros

o sonho de que se gosta.



Pensando no caminho

pensando o rosto da flor

que pode vir, mas não vem



Passam luas - muito longe,

estrelas - muito impossíveis,

nuvens sem nada, também.



Cantar de beira de rio:

o mundo coube nos olhos,

todo cheio, mas vazio.



A água subiu pelo campo,

mas o campo era tão triste...

Ai!

Cantar de beira de rio.



Cecília Meireles

CECILIA MEIRELES

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,


a que não se recusa a esse final convite,

em máquinas de adeus, sem tentação de volta.



Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

já de horizontes libertada, mas sozinha.



Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,

dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.



Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:



"Agora és livre, se ainda recordas."



Cecília Meireles

CECILIA MEIRELES

Constância do deserto






Em praias de indiferença

navega meu coração.

Venho desde a adolescência

na mesma navegação.

- Por que mar de tanta ausência,

e areias brancas de tão

despovoada inconsistência,

de penúria e de aflição?

(Triste saudade que pensa

entre resposta e a intenção!)

Números de grande urgência

gritam pela exatidão:

mas a areia branca e imensa

toda é desagregação!



Em praias de indiferença

navega meu coração.

Impossível, permanência.

Impossível, direção.

E assim por toda a existência

navegar, navegarão

os que têm por toda ciência

desencanto e devoção.



Cecília Meireles

in: Mar Absoluto

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CLARICE LISPECTOR

CLARICE LISPECTOR

Roseana Murray

'Jogo da Verdade'




A verdade é um labirinto.



Se digo a verdade inteira,

se digo tudo o que penso,

se digo com todas as letras,

com todos os pingos nos is,

seria um deus-nos-acuda,

entraria um sudoeste

pela janela da sala.

Então eu digo

a verdade possível,

e o resto guardo

a sete chaves

no meu cofre de silêncios.



Roseana Murray

in ‘Pêra, Uva ou Maçã’(2005)

PAULOBONFIM

O Ar








Em nossa transparência

Os muros da carne.



Em nossa angústia

O vento rebelde.



Em nossa nuvem

O vôo do pássaro.



Em nossa fonte

A água invisível.



Em nossa árvore

A serpente do nada.



Somos o ar

Na torre das palavras.







Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7

Som Distante

Maria Hilda de J. Alão

VERSOS QUE FIZ




Há versos que fiz de dores,

outros me inspirou a alegria.

Teço sofisticadas imagens

de luas no céu e no chão,

refletidas nas poças d’água

da fria chuva da madrugada.

Escrevi versos de desejo

fixando o olhar num retrato

e o pensamento no infinito,

nas horas em que o silêncio maciço

ondula diante dos meus olhos

lembrando ancas luxuriosas.

Ousei, fui mais atrevida,

versejei a partir dum sonho,

um corpo em repouso no leito

e uma boca a beijar-me o seio.

Cristalizei letras e vocábulos

do quebra-cabeça da linguagem

com eles construí poemas de fogo,

de presenças, de ausências

e de visão metafórica

do sono eterno da morte.

Mostrou-me, a musa, sombras,

vôos de feixes de luz,

aguçou meu exotismo,

desnudou meu erotismo

plasmando-o em cada palavra

dos versos que já fiz.





Maria Hilda de J. Alão

Ana Hatherly

A minha vida é poética:


Paira entre a vaga mentira e a realidade.

O amor me acontece

Como as folhas às árvores,

E tão singularmente,

Que já nem sei se é natural à árvore ter folhas

Ou estar nua...



- Ana Hatherly –

Paulo Leminski

Plena pausa




Lugar onde se faz

o que já foi feito,

branco de página,

soma de todos os textos,

foi-se o tempo

quando, escrevendo,

era preciso

uma folha isenta.



Nenhuma página

jamais foi limpa.

Mesmo a mais Saara,

ártica, significa.

Nunca houve isso,

uma página em branco.

No fundo, todas gritam,

pálidas de tanto."





Paulo Leminski

Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta


CERÂMICA



Montículo de argila,

de híspidos pêlos vegetais tufado.

Rude, entretanto modelado.

Um subterrâneo orvalho

mina-lhe à superfície, fontanando-a.

Tênue gêiser, solfatara.

Brilha nos olhos minerais um frio.

E move-se, mágica cerâmica!

e se ergue, semovente

barro cozido ao sol!



Anderson Braga Horta

In Exercícios de Homem (1978)



PROTOFLAMA



Na argila dos pântanos

palpita

premonitória luz

invisa.



Mais que reflexo, a luz que brilha

no barro:

chama, secreta chama, protoflama

de uma alma.



Nela se insculpem, futuras,

as formas,

as áureas formas: na semente a árvore

remota.



Anderson Braga Horta

In Exercícios de Homem (1978)





TREVALUME



Grita-se “Homem à Terra!” e ninguém não acode.

Diluídos no sem-fim do inexistir, os deuses.

Quem ouve? Quem não pode. E grita? Quem se morre.

Solidão! solidão dos cardumes nas redes!



O Homem donde vem? Caiu donde não era.

Para onde vai? Não sabe. E o que deseja? A volta.

Que trouxe? Um sol que ardeu futuro antes da queda

e que é feito de cinza (e fora lume outrora?).



Que leva? Uma saudade anterior de incêndio.

Ou uma canção sem voz? Ou uma luz que se coalha

no coágulo maior das grossas trevas, rocha?



Anoitece? amanhece? ele perplexo baila

da garupa de um ai ao cavo de um silêncio,

sem ver donde praonde a treva se desloca.



Anderson Braga Horta

In Exercícios de Homem (197 17 out excluir Nan

NÓS, O HOMEM



Mineiro noturno, escavo

minhas minas de angústia.

Uma luz na testa —

um caminho, antolhos, parede de pedra.

Uno e múltiplo,

solidário e solitário, respiro

pó e treva. E esperança.

Escavo a terra,

mas de mim mesmo extraio as minhas gemas.

Elas brilham no escuro,

iluminam meus medos e meus tédios,

minha força e minha fé.

Ajo e contemplo-me.

Escavo, escravo: de antever-me

lavado em névoas matutinas.

E vou, retórico e despido,

a caminho de mim.



Anderson Braga Horta

In Exercícios de Homem (1978)

CLARICE LISPECTOR

CLARICE LISPECTOR

FERNANDO PESSOA

GILBERTO MENDONÇA TELES

ARMINDO TREVISAN

GUIMARÃES ROSA

ANDERSON BRAGA HORTA

CRUZ E SOUSA

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Heráclito de Éfeso

“Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”

Tudo é feito pelo fogo e tudo se dissipa no fogo. Tudo está submetido ao destino. O movimento – o devenir perpétuo – determina toda a harmonia do mundo

“Este mundo (...) foi sempre, é e será sempre um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”. A regularidade e a medida são garantidas pela simultaneidade dos dois caminhos de transformação que compõem o fluxo universal: é ao mesmo tempo que ocorre a troca do fogo em todas as coisas e de todas as coisas em fogo, pois “o caminho para o alto e o caminho para baixo são um e o mesmo”. Isso permite então afirmar: “...e a, metade do mar é terra, a metade vento turbilhonante”. Assim, o que garante a tensão intrínseca às coisas é aquilo mesmo que as sustenta: a medida imposta pelo Logos, essa “harmonia oculta” que “vale mais que harmonia aberta”.


(O Sol tem) a largura de um pé humano.


 
Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer
 
Em vão procuram purificar-se, manchando-se com novo sangue de vítimas, como se, sujos com lama, quisessem lavar-se com lama. E louco seria considerado se alguém o descobrisse agindo assim. Dirigem também suas orações a estátuas, como se fosse possível conversar com edifícios, ignorando o que sejam os deuses e os heróis.
 
Se todas as coisas se tornassem fumaça, conhecer-se-ia com as narinas
 
 
 

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ylia Kazama

Ylia Kazama






Tesitura

1



Hoy tengo un deseo que me hace nueva...

Mi intención "hombre de agua" es:

obsesionarte con mi beso;

amarte con fascinación,

con adoración ferviente.

Haremos el amor... delicadamente.



2



Cuando tu boca apenas me roza

me convierte en una parcela llena de humedad.

Me seduces a la liviandad.



3



Mi liviandad tu la provocas, con tu mirada de beso

con tu beso de ... quiero!.



4



Tu cuerpo cálido es una invitación abierta al amor.

No sólo a la demostración física...

Hablo del sentimiento vasto e infinito.

De la pasión que no decrece con la presencia,

de la que se intensifica con la ausencia.

Hablo de lo que me inspira

tu esencia y contexto.

Lleno de defectos, que bien claro miro

y no me asusta; que asumo como algo tuyo.

Hablo de algo muy sencillo:

del amor que por ti siento.



5



Me encanta como suenas,

tu sabor, olor

y textura.

Me fascina como piensas,

tu manera de mirar

y locura.



6



A qué sabrá tu boca en la mañana?

A membrillo?, a durazno?... a limón!.

Cómo se oirá tu corazón en la mañana?

Cómo un tambor?... cómo trombón?... cómo canción!.

Cómo despertaras después de "eso", en la mañana?

Humanamente?... amantemente?... Amadamente!.



7



La noche es un milagro.

Transitar por ella me hace vasta.

La obscuridad es vulnerabilidad

en espacio impenetrable.

Vulnerabilidad es la obscuridad.

Vasta me hace transitar por ella.

Es un milagro la noche



8



Mientras despierta sueño,

que soy tu sueño.

Que sueñas

que te sueño

y así... no duermo.



9



Pienso que estoy en tu pensamiento

que piensas que te pienso

y así.... me duerme.



10



La noche ya llego... estoy dispuesta al amor.

Dispuesta a tu amor... amanezco.



11



Acontece que amanece cuando el amor llega.



12



Vengo a descubrir que la inspiración

algo te la da.

Sólo falta un beso... te besan y ya!.



13



No sé sí estoy inspirada o sólo enamorada.



14



Entre el amor, la noche, el sueño,

la realidad, el deseo;

la pasión y la ternura

está la tesitura.



Ylia Kazama é





Tesitura

1



Hoy tengo un deseo que me hace nueva...

Mi intención "hombre de agua" es:

obsesionarte con mi beso;

amarte con fascinación,

con adoración ferviente.

Haremos el amor... delicadamente.



2



Cuando tu boca apenas me roza

me convierte en una parcela llena de humedad.

Me seduces a la liviandad.



3



Mi liviandad tu la provocas, con tu mirada de beso

con tu beso de ... quiero!.



4



Tu cuerpo cálido es una invitación abierta al amor.

No sólo a la demostración física...

Hablo del sentimiento vasto e infinito.

De la pasión que no decrece con la presencia,

de la que se intensifica con la ausencia.

Hablo de lo que me inspira

tu esencia y contexto.

Lleno de defectos, que bien claro miro

y no me asusta; que asumo como algo tuyo.

Hablo de algo muy sencillo:

del amor que por ti siento.



5



Me encanta como suenas,

tu sabor, olor

y textura.

Me fascina como piensas,

tu manera de mirar

y locura.



6



A qué sabrá tu boca en la mañana?

A membrillo?, a durazno?... a limón!.

Cómo se oirá tu corazón en la mañana?

Cómo un tambor?... cómo trombón?... cómo canción!.

Cómo despertaras después de "eso", en la mañana?

Humanamente?... amantemente?... Amadamente!.



7



La noche es un milagro.

Transitar por ella me hace vasta.

La obscuridad es vulnerabilidad

en espacio impenetrable.

Vulnerabilidad es la obscuridad.

Vasta me hace transitar por ella.

Es un milagro la noche



8



Mientras despierta sueño,

que soy tu sueño.

Que sueñas

que te sueño

y así... no duermo.



9



Pienso que estoy en tu pensamiento

que piensas que te pienso

y así.... me duerme.



10



La noche ya llego... estoy dispuesta al amor.

Dispuesta a tu amor... amanezco.



11



Acontece que amanece cuando el amor llega.



12



Vengo a descubrir que la inspiración

algo te la da.

Sólo falta un beso... te besan y ya!.



13



No sé sí estoy inspirada o sólo enamorada.



14



Entre el amor, la noche, el sueño,

la realidad, el deseo;

la pasión y la ternura

está la tesitura.

Pablo Neruda

Unidade




Há algo denso, unido, sentado no fundo,

a repetir seu número, seu sinal idêntico.

Como se nota que as pedras tocaram o tempo,

em sua fina matéria há um olor a idade,

e à água que traz o mar, de sal e sonho.



Rodeia-me uma mesma coisa, um movimento único:

o peso do mineral, da luz, do mel,

colam-se ao som da palavra noite:

a tinta do trigo, do marfim, do pranto,

as coisas de couro, de madeira, de lã,

envelhecidas, debotadas, uniformes,

unem-se em meu redor como paredes.



Trabalho surdamente, a girar sobre mim mesmo,

como o corvo sobre a morte, o corvo de luto.

Penso, isolado na extensão das estações,

central, cercado por uma geografia silenciosa:

uma temperatura parcial cai do ceu,

um extremo império de confusas unidades

reúne-se a cercar-me.



Pablo Neruda



Gosto quando te calas



Gosto quando te calas porque estás como ausente,

e me ouves de longe, minha voz não te toca.

Parece que os olhos tivessem de ti voado

e parece que um beijo te fechara a boca.



Como todas as coisas estão cheias da minha alma

emerge das coisas, cheia da minha alma.

Borboleta de sonho, pareces com minha alma,

e te pareces com a palavra melancolia.



Gosto de ti quando calas e estás como distante.

E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.

E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:

Deixa-me que me cale com o silêncio teu.



Deixa-me que te fale também com o teu silêncio

claro como uma lâmpada, simples como um anel.

És como a noite, calada e constelada.

Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.



Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se tivesses morrido.

Uma palavra então, um sorriso bastam.

E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.



Pablo Neruda

Clarice Lispector

Um sopro de vida (pulsações)


" Dizer palavras sem sentido é a minha grande liberdade. Ouco me importa ser entendida, quero o impacto das silabas ofuscantes, quero o nocivo de uma palavra má...eu sou de longe. Muito longe. E de mim vem o puro cheiro de querosene."

Clarice Lispector

poetas azuis

Pequeno esclarecimento...Mario Quintana


Os poetas não são azuis nem nada,

como pensam alguns supersticiosos,

nem sujeitos a ataques súbitos de levitação.

O que eles mais gostam é estar em silêncio -

um silêncio que subjaz a quaisquer escapes

motorísticos ou declamatórios.

Um silêncio...

Este impoluível silêncio em que escrevo

e em que tu me lês.

A vaca e o hipogrifo - Quintana
Esse silêncio azul


Azul tão imenso quanto o silêncio

da paz.

Silêncio que busco no

Azul que encontro...

Matizes azuis que encantam as serpentes que me cercam

Invólucros que embalam as insistentes desconstruções

Azul das águas que são vidas

Azul do espelho d'alma que hoje traduz a calmaria

dos meus mares..

Ntakeshi.





...e os poetas continuam não sendo azuis...nem nada ...*Mário Quintana

Mas alguns são tão anis que resplandecem

E transcedem a própria morte em tons coloridos e fascinantes


Salmos poéticos

Salmo 90:1 Senhor, tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração.


Salmo 90:2 Antes que nascessem os montes, ou que tivesses formado a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade tu és Deus.

Salmo 90:3 Tu reduzes o homem ao pó, e dizes: Voltai, filhos dos homens!

Salmo 90:4 Porque mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem que passou, e como uma vigília da noite.

Salmo 90:5 Tu os levas como por uma torrente; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce;

Salmo 90:6 de manhã cresce e floresce; à tarde corta-se e seca.

Salmo 90:7 Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos conturbados.

Salmo 90:8 Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, à luz do teu rosto os nossos pecados ocultos.

Salmo 90:9 Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; acabam-se os nossos anos como um suspiro.

Salmo 90:10 A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos.

Salmo 90:11 Quem conhece o poder da tua ira? e a tua cólera, segundo o temor que te é devido?

Salmo 90:12 Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios.

Salmo 90:13 Volta-te para nós, Senhor! Até quando? Tem compaixão dos teus servos.

Salmo 90:14 Sacia-nos de manhã com a tua benignidade, para que nos regozijemos e nos alegremos todos os nossos dias.

Salmo 90:15 Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, e pelos anos em que vimos o mal.

Salmo 90:16 Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória sobre seus filhos.

Salmo 90:17 Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos.

Paulo Bonfim

Primeiro foi o mar, selva noturna


Com solidão de estrela na manhã;

Houve ramos de sal sobre saudades,

E falhas transparentes de lembranças



Primeiro foi o mar, terra perdida

Na oscilação de vales e montanhas,

Houve marcos plantado em salsugem,

E fronteiras na espuma descoberta.



Primeiro foi o mar, o chão de espanto,

Sulcado pela quirela dos arados

Que o vento fecundou em noite escura...



Depois, houve caminhos e sementes;

O sonho despertou sereias brancas,

E a treva amanheceu em madrugada.



Armorial I - Paulo Bonfim



Tão tarde seria

Se apenas chegasses

Vestida de verbos

Que as lendas conjugam.

Se fosses o afago

Pousado em meu braço,

O vago retórico

De gaios torneios

Tão tarde

seria se apenas trouxesses

o limbo em teu ventre

e cítaras mudas

tocadas de ausência

se esfera flutuassem

no vinho proibido,

apenas legasses

o sal a meu golfo,

e um gosto do vazio

aos frutos que espero;

tão tarde seria!



Canções – Paulo Bonfim

Paulo Leminski

A Multiplicidade do Real




Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?

A igual probabilidade dos eventos impossíveis?

A eterna troca de tudo em tudo?

A única realidade absoluta?

Seres se traduzem.

Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.

Tudo irremediavelmente metamorfose!







Paulo Leminski



Uma poesia ártica,

claro, é isso que eu desejo.

Uma prática pálida,

três versos de gelo.

Uma frase-superfície

onde vida-frase alguma

não seja mais possível.

Frase, não, Nenhuma.

Uma lira nula,

reduzida ao puro mínimo,

um piscar do espírito,

a única coisa única.

Mas falo. E, ao falar, provoco

nuvens de equívocos

(ou enxame de monólogos?)

Sim, inverno, estamos vivos.







Paulo Leminski

AVISO AOS NÁUFRAGOS





Esta página, por exemplo,

não nasceu para ser lida.

Nasceu para ser pálida,

um mero plágio da Ilíada,

alguma coisa que cala,

folha que volta pro galho,

muito depois de caída.



Nasceu para ser praia,

quem sabe Andrômeda, Antártida

Himalaia, sílaba sentida,

nasceu para ser última

a que não nasceu ainda.



Palavras trazidas de longe

pelas águas do Nilo,

um dia, esta pagina, papiro,

vai ter que ser traduzida,

para o símbolo, para o sânscrito,

para todos os dialétos da Índia,

vai ter que dizer bom-dia

ao que só se diz ao pé do ouvido,

vai ter que ser a brusca pedra

onde alguém deixou cair o vidro.

Não e assim que é a vida?





Paulo Leminski



...





Vim pelo caminho difícil,

a linha que nunca termina,

a linha bate na pedra,

a palavra quebra uma esauina,

mínima linha vazia,

a linha, uma vida inteira,

palavra, palavra minha





Paulo Leminski

PAULO BONFIM

Deixa que as coisas te interpretem

Que o vento sinta tua pele,

Que as pedras meditem teus passos,

E as águas criem tua realidade.

Vive o mistério da terra,

O segredo da semente,

O caminho da seiva,

O milagre do fruto.

Deixa que as coisas meditem sobre ti

Que ventos,pedras e águas recriem tua imagem;

Entende a mão que te acolheu,

A lâmina que te despe

E sangra teu silêncio,

Reflete o mundo branco que te mastiga,

Transforma-te em carne,e em galeras de sangue.

Regressa

A vida terá partido,com bicos noturnos,

A casca da palavra.



-Descoberta - Paulo Bonfim - 50 anos de Poesia









A Água







Despe, na solidão da tarde,

Tua roupagem manchada de quotidiano,

E deixa que a chuva molhe teus cabelos

E vista teu corpo de escamas de prata.

Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos

E colhe no cântaro de tuas mãos

A música dos dias que adormeceram

No fundo de teu ser.

Mármores líquidos moldarão teu corpo.

Nuvem,

Penetrarás a carne da manhã.









Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7











SONETO V





Alquimia do verbo. Em minha mente

Recriam-se palavras na hora vária,

A poesia se torna necessária

E as flores rememoram a semente.



É preciso que exista novamente

A aventura distante e temerária

De em ouro transformar a dor precária

E em nós deixar correr a lava ardente.



Que emoção profunda e mineral

Corra nos veios desta carne astral

E encontre em mim aquilo que procura.



Na paisagem que for, já sou nascido:

Nas formas criarei o elo perdido,

E, em lucidez, serei minha loucura.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 –

autoria desconhecida

(...)Cada estação da vida


é uma edição que corrige a anterior,

E que será corrigida também,

até a edição definitiva,

Que o editor dá de graça aos vermes(...)

Autoria desconhecida

Escutatória - Rubem Alves

OUVIR É PURA ARTE


Escutatória - Rubem Alves



Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de

escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.

Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:

Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.

É preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade:

A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...

Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...

E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.

No fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.

Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.

Há um longo, longo silêncio.

Vejam a semelhança...

Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...

Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.

Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...

Pensamentos que ele julgava essenciais.

São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.

Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.

Na verdade, não ouvi o que você falou.

Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.

Falo como se você não tivesse falado.



Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.

É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.

E, assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.

E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência...

E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.

Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...

Que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

"Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade"

Sempre que interrompemos uma pessoa que está falando algo , é pq na verdade sempre achamos o que nós temos a dizer é muito mais interessante.



Sutil arrogância e vaidade. Concordo.

J. Keats

"...A poesia nos deve surpreender pelo seu delicado excesso e não porque é diferente. Os versos devem tocar nosso próximo, como se ele tivesse lembrado algo que nas noites dos tempos já conhecia em seu coração.


A beleza de um poema não está na capacidade que ele tem de deixar o leitor contente.

A poesia é sempre uma surpresa, capaz de nos tirar a respiração por alguns momentos.

Ela deve permanecer em nossas vidas como o pôr-do-sol:

- Algo milagroso e natural ao mesmo tempo".



J. Keats

FERNANDO PESSOA

O vento levantou-se...


Primeiro era como a voz de um vácuo...

Um soprar do espaço para dentro de um buraco,

Uma falta no silêncio no ar.

Depois ergueu-se um soluço,

Um soluço do fundo do mundo,

O sentir-se que tremiam vidraças

E que era realmente vento.

Depois soou mais alto, urro surdo

Um chorar sem ser ante o aumentar nocturno

Um ranger de coisas, um chorar de bocados,

Um átomo de fim do mundo.



Fernando Pessoa – livro do Desassossego 52.

HILDA HILST

‘’Mandíbulas. Espáduas.Frente e Avesso.


A vida ressoa o coturno na calçada.

Estou mais que viva: embriagada.

Bêbados e louco é que repensam

A carne e o corpo.

Vastidão e cinzas

Conceitos e palavras’’

(Alcoólicas- Do desejo 1993 Hilda Hilst)

PULO BONFIM- SONETOS

O Ar








Em nossa transparência

Os muros da carne.



Em nossa angústia

O vento rebelde.



Em nossa nuvem

O vôo do pássaro.



Em nossa fonte

A água invisível.



Em nossa árvore

A serpente do nada.



Somos o ar

Na torre das palavras.







Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7

Som Distante



Pela janela aberta para o céu de estrelas,

Penetrou, pelo meu quarto adentro,

O rumor de um corpo que é lançado ao mar!

A eleita de meus sonhos

Teve por última morada

O fundo do Oceano!



Seus cabelos loiros são agora

Mensagens da luz do sol

No abismo das águas.

Seu corpo, muito branco,

Quando livrar-se da mortalha

Que os marinheiros rudes coseram,

Será, na imensa noite oceânica,

Um raio de luar a percorrer abismos.



A eleita de meus sonhos

Teve por última morada

O fundo do Oceano!

Os bancos submersos de corais,

As esverdeadas águas,

Hão de invejar seus lábios rubros

E a cor de seus olhos verdes;

Suas mãos espirituais

Serão estrelas de cinco pontas

Correndo o mundo das águas.



Um corpo amortalhado foi lançado ao mar!

Algo de estranho passou dentro de mim!

Pois sinto-me afastado para sempre

Do círculo vicioso da Esperança!





In: BOMFIM, Paulo. Antônio Triste. Pref. Guilherme de Almeida. Il. Tarsila do Amaral. São Paulo: Martins, 1946

Soneto XVII





[Noites que são galeras cor do tempo]





Noites que são galeras cor do tempo:

Velas de sombra pousam na paisagem,

E o silêncio desperta outro silêncio,

Nos mudos tripulantes que hoje somos!



Noites que são galeras cor da morte:

Quilhas de ônix e grandes remos de ébano,

Revolvem singraduras de luar

No mar atormentado de lembranças!



Noite que são galeras cor do espaço:

Grandes barcos de treva carregados

De abismos e de pétalas de luz!



Noites que são galeras que não voltam:

Um dia chegaremos ao refúgio

Das naus transfiguradas em passado!





Poema integrante da série Sonetos Branco.

In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955

XXIII

[A linguagem do eterno]





A linguagem do eterno

Principia no efêmero.

Em nosso mar

A intuição é pérola.





Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.

In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955

"AI DAQUELES'



Ai daqueles que brincam com a esperança de um povo!

Ai daqueles que se banqueteiam junto à fome de seus irmãos!




Ai daqueles que são fúteis numa hora grave,

Indiferentes num momento definitivo!



Ai daqueles que fazem da mentira a verdade de suas vidas!

Ai daqueles que usam os simples como degraus de sua vaidade

e instrumento de sua ambição!



Ai daqueles que fabricam com a violência a trama do medo!



Ai daqueles que usam o dinheiro para prostituir,

humilhar e deformar!



Ai daqueles que se atordoam

para fugir das próprias responsabilidades!



Ai daqueles que traficam a terra de seus mortos enxovalham

tradições e traem compromissos com o presente e com o futuro!



Ai daqueles que se fazem de fracos no instante da tempestade!

Ai daqueles que se acomodam a tudo, que se resignam a tudo,

que se entregam sem lutar!



Ai daqueles que loteiam seus corações, alugam suas consciências,

transacionam com a honra,

especulam com o bem, açambarcam a

felicidade alheia e erguem virtudes falsas sobre pântanos!



Ai daqueles que concordam em morrer vivos!





PAULO BONFIM

ARMORIAL, XI







Por certo hei de cantar esquecimento

Manhãs paulistas onde sou raízes...

Recordações ondulam neste campo

Onde o vento conduz a minha história.



Por certo nascerei em cada folha

Sonhada na madeira das canoas,

E minhas penas brilharão na fronte

De astrais caciques conduzindo noites.



Por certo cantarei pegadas mortas,

Marcando em minha carne seus caminhos

Desbravados em células remotas...



Que estes versos queimados de horizonte,

Falem dialetos puros e selvagens,

Nas manhãs mamelucas que hoje canto.





Paulo Bonfim

SONETO I





No ramo a flor será sempre segredo

Moldando realidades no vazio,

Caminho de perfume, rosa e estio,

Crescendo além dos roseirais do medo.



Histórias das raízes sem enredo ...

Rolam frases de terra pelo rio,

As consoantes de luz tremem de frio

E as vogais orvalhadas morrem cedo.



No ramo a flor será sempre futuro,

Haste e corola nos confins do sonho,

Marcando de infinito a cor do muro ...



Sempre a cor sobre a senda debruçada,

E o perfume crescendo onde reponho

O sentido da flor despetalada.





Paulo Bomfim –

in Sonetos – l.959 - 24/05/08 Maria Madalena

SONETO II





O livro que hoje escrevo foi escrito

Em outro plano estático e diverso,

Sei que morro no fim de cada verso

E renasço no início de outro mito.



Em cada letra tinta de infinito

Há um diálogo mudo que converso

Com nebulosas de meu universo

Onde nasceu a página que dito.



Sei que sou neste instante o que já fui,

E aquilo que recebo agora flui

De um campo superior onde me deito.



Durmo além, nessa plaga que recordo;

Só escrevo neste plano onde hoje acordo,

Aquilo que ainda sonho no outro leito.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 – 24/05/08 Maria Madalena

SONETO III





Nascer do verso puro e correntio,

Brotar da fonte feita de miragem,

Sentir que em nós, outros espectros agem

Vivendo em nossa pele de arrepio.



Rolar no próprio espanto a voz do rio

Sumindo em chão secreto da mensagem,

Saber que os olhos são também paisagem

Vista de além do céu perdido e frio.



Nascer em cada sopro de universo,

Ser alma navegando o som do verso

Em sílabas de espelho pelo porto.



Chorarmos vida no destino morto;

Sabendo que esse pranto assim convulso

É o tema que hoje bate em nosso pulso.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 - 29/05/08 Maria Madalena

SONETO IV





Onde guardar a esquiva luz dos fastos

Escritos no papiro das areias?

Longe é o mar, canto verde de sereias,

Mais longe é o tempo com seus campos vastos.



Que memória retém minutos castos

Que a vida foi prendendo em suas teias,

Hoje que a morte passa em nossas veias

Trilhando o sangue dos caminhos gastos!



Agora que as memórias esquecidas

São pássaros batendo asas de fumo

Na sombra que anuncia despedidas ...



Agora, nuvem triste em sol deposto,

Onde guardar a esquiva luz de um rumo,

Se a vida anoitece em nosso rosto!





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 – 30/05/08 Maria Madalena

SONETO V





Alquimia do verbo. Em minha mente

Recriam-se palavras na hora vária,

A poesia se torna necessária

E as flores rememoram a semente.



É preciso que exista novamente

A aventura distante e temerária

De em ouro transformar a dor precária

E em nós deixar correr a lava ardente.



Que emoção profunda e mineral

Corra nos veios desta carne astral

E encontre em mim aquilo que procura.



Na paisagem que for, já sou nascido:

Nas formas criarei o elo perdido,

E, em lucidez, serei minha loucura.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 – 30/05/08 Maria Madalena

SONETO VI





Sei que fui viandante, o mar, os olhos

Da noite que hoje mora nos cabelos,

Fechei meus passos com noturnos selos

E em desenhos nublados fiz meus sólios.

Sei que sou maresia nos escolhos


Unindo além do sal de tantos elos

Ilhas e continentes, sem perdê-los

Na areia, nas palavras, nos abrolhos.



Sei que seria a vida renascida

Das ondas verdes que já não se espraiam

Na página de sombra já relida.



Sei que serei aquele que convence o

Espanto das estrelas que desmaiam

E acordam transformadas em silêncio.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 – 30/05/08 Maria Madalena

SONETO VII





Deixa que eu seja o mar unicamente,

Sem praias, sem montanhas de alegria;

- Corta-me os tubos de ar da noite fria,

E não roubes de mim o sal ardente.



Se as ilhas já cantei antigamente,

Hoje canto os segredos sem o dia,

As cavernas de sombra e maresia,

Os céus de espuma desta vida ausente.



Crescendo-me nos pés as nadadeiras,

Leve-me ao fundo de meu próprio mal

A carne destas ondas companheiras ...



Então, nas águas onde tu me deixes,

Pensarei escafandros de cristal,

E as guelras, e as escamas de meus peixes.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 - 12/06/08 Maria Madalena

SONETO VIII





Este crescer constante das paredes

Onde guardo retratos do infinito,

As tintas apagadas de meu grito

E os lábios de papel bebendo sedes;



Tetos que vão fugindo, onde não credes

Possam viver lanternas de granito,

Luzes astrais surgidas de outro mito

Pescado nas escamas de outras redes;



Paredes que plantei em chãos de outrora,

Onde a paisagem era o fim e o centro,

E as portas davam nos confins da aurora ...



Sei que o teto me foge como as naves:

Agora que se apaga a voz de dentro,

A vida emigra na canção das aves.





Paulo Bomfim

in Sonetos – l.959 –

Henriqueta Lisboa

'Noturno '




Meu pensamento em febre

é uma lâmpada acesa

a incendiar a noite.



Meus desejos irrequietos,

à hora em que não há socorro,



dançam livres como libélulas

em redor do fogo.



Henriqueta Lisboa

Publicado: Prisioneira da Noite (1941

desconheço a autoria

No teu corpo...








Escrevo um poema no teu corpo

Escrevo-o com palavras-mãos

Soletrando as palavras

Desejo lascívia

Carícia e prazer

Não vou pontuar o meu poema

Nada de vírgulas

Pontos finais

Mudanças de parágrafo

Não quero pausas

No meu poema-corpo

Escrevo-o sem parar

Sem respirar

De cima para baixo

Subvertendo a palavra crescendo

Risco cravo o poema

No teu corpo-página

Até ficares preenchido

Coberto repleto

De traços riscos e letras

Até só haver espaço

Para a palavra orgasmo

E não faltar escrever

Senão a palavra

Fim

publicado por Pensador Insuspeito às 11:42

FERNANDO PESSOA

Ninguém compreende outro.Somos,como disse o poeta,ilhas no mar da vida;


Corre entre nós o mar que nos define e separa.

Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma,

Não saberá senão o que lhe diga uma palavra – sombra disforme no chão do seu

Entendimento.

Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem(...) – Fernando Pessoa

Livro do Desassossego – 359



...o sagrado instinto de não ter teorias ... 253







Apoteose do absurdo -371 Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Falo a sério e tristemente;este assunto não é para alegria,

Porque as alegrias do sonho são contraditórias e entristecidas

E por isso aprazíveis de uma misteriosa maneira especial.

Sigo às vezes em mim,imparcialmente,essas coisas deliciosas e absurdas

Que eu não posso poder ver,porque são ilógicas à vista –pontes sem donde nem para onde,

Estradas sem principio nem fim,paisagens invertidas- o absurdo ,o ilógico,o contraditório,

Tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos

Práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua.O absurdo salva de chegar

A pesar de tédio aquele estado de alma que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.

E chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos - não sei explicar,mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.

Apoteose do Absurdo - 372

Absurdemos a vida,de leste a oeste.

Roberta Cazal

Não sei




Não sei fazer sonetos

Na dramaturgia do abstrato lírico

Ou mesmo a poesia do momento

Nada me ocorre - nada místico



Não sei fazer amor

Com seu sentimentalismo dolente

Ou mesmo o bruto amor ardente

Nem sei amar lascivamente



Não sei fazer, mas não saber é vão

Dispenso lições de pseudo-sábios

Tão somente a sapiência dos teus lábios

Hão de disciplinar néscio coração....



Roberta Cazal

Oscar Wilde

Loucos e Santos




Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.

Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.

Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

Leminski

"eu

quando olho nos olhos

sei quando uma pessoa

está por dentro

ou está por fora



quem está por fora

não segura

um olhar que demora



de dentro de meu centro

este poema me olha "



"Carrego o peso da lua,

Três paixões mal curadas,

Um saara de páginas,

Essa infinita madrugada.



Viver de noite

Me fez senhor do fogo.

A vocês, eu deixo o sono.

O sonho, não.

Esse, eu mesmo carrego."





Leminski

Roseana Murray

'Jogo da Verdade'




A verdade é um labirinto.



Se digo a verdade inteira,

se digo tudo o que penso,

se digo com todas as letras,

com todos os pingos nos is,

seria um deus-nos-acuda,

entraria um sudoeste

pela janela da sala.

Então eu digo

a verdade possível,

e o resto guardo

a sete chaves

no meu cofre de silêncios.



Roseana Murray

in ‘Pêra, Uva ou Maçã’(2005)

Hilda Hilst

Tudo vive em mim.Tudo se entranha


Na minha tumultuada vida.E por isso

Não te enganas,homem,meu irmão,

Quando dizes na noite,que só a mim me vejo

Vendo-me a mim,a ti.E a esses que passam

Nas manhãs,carregados de medo,de pobreza,

O olhar aguado,todos eles em mim,

Porque o poeta é irmão do escondido das gentes

Descobre além da aparência,é antes de tudo

LIVRE,e por isso conhece.Quando o poeta fala

Fala do seu quarto,não fala do palanque,

Não está no comício,não deseja riqueza

Não barganha,sabe que o ouro é sangue

Tem olhos no espírito do homem

No possível infinito.Sabe de cada um

A própria fome.E porque é assim,eu te peço:

Escuta-me.Olha-me.Enquanto vive um poeta

O homem está vivo.

Hilda Hilst

Hermann Hesse

"Entre as palavras,

existem para cada falante as prediletas e as estranhas,

preferidas e evitadas, cotidianas -

que se usam mil vezes sem temer o desgaste -

e outras - solenes - que, por mais que as amemos,

só pronunciamos ou

escrevemos com cuidado e reflexão,

como objetos raros:

fazendo as escolhas que correspondem

a essa sua solenidade.

Entre elas está para mim a palavra : FELICIDADE."



(Hermann Hesse)

Helena Kolody

Trilha Batida






Em todos os caminhos,

vestígios de outros passos.



A própria voz se perde

no vozear imenso.



Há muito,alguém pensou

os nossos pensamentos.



Só existe um refúgio,

uma posse,

um domínio defendido:

o profundo de nós mesmos,

singular

e indevassável.



Helena Kolody

'ALMA'



Se eu pudesse fugir à planície da vida...



Como um arranha-céu de fronte de granito,

Iria projetar uma estrutura de aço

Para a cintilação remota das estrelas,

Para a serenidade inefável do espaço.



(1977)



Helena Kolodi em 'Correnteza' 1.977-







Evolução





Caem as folhas de repente,

brotam outras pelos ramos,

murcham flores, surgem pomos

e a planta volta à semente.



Assim somos. Sutilmente,

diferimos do que fomos.



Impossível transmitir,

por secreto e singular,

o acrescentar e perder

desse crescer que é mudar.



Helena Kolody

Alegrias





As alegrias passam por mim

Qual um sonoro bando de aves brancas

Por sobre o espelho do mar.



A superfície vibra de inquietas imagens.

Mas a profundeza é sempre a mesma,

Sempre a mesma,

E é eternamente a mesma a direção das vagas.



Helena Kolody

O Dom de Ouvir



Ouvir

Como quem abraça e beija

a alma solitária

dos que ninguém escuta.



Ouvir com o coração

a confidência,

a queixa,

a longa história

dos isolados

pela indiferença alheia.



Ouvir com os olhos

e afirmar:

eu compreendo.



Nem é preciso dizer nada.



Helena Kolody

NALDOVELHO

ETERNIDADE




NALDOVELHO





Não devo permitir o último beijo,

o último olhar, a última palavra...

Ainda que a porta se feche,

ficará o último desejo.



De ti, nada permitirei que seja adeus,

tudo há de me pertencer e eternamente,

meu espírito não mente.

A prova?

Haverá sempre mais um poema

Lenise Marques

Há dias que estou ausente:


chegam-me longínquos os ruídos externos,

atravessando camadas e camadas

de mim mesma até meu Eu.



Todo dia me perco,

e todo dia me acho,

descendo até meus internos porões

e retornando depois lentamente,

me tornando matéria, ossos...pele.

Abrindo a porta,

e saindo finalmente à luz!



E quem me vê não imagina:

Que nasço todo dia de mim mesma

e que não sei nesse processo,

e nessa passagem entre os dois mundos



...à qual deles realmente pertenço!





Lenise Marques

Mahatma Gandhi

Sobre Gandhi, Albert Einstein disse que as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra.


Orar não é pedir. Orar é a respiração da alma

A regra de ouro consiste em sermos amigos do mundo e em considerarmos como uma toda a família humana. Quem faz distinção entre os fiéis da própria religião e os de outra, deseduca os membros da sua religião e abre caminho para o abandono, a irreligião."

Só quando se vêem os próprios erros através de uma lente de aumento, e se faz exatamente o contrário com os erros dos outros, é que se pode chegar à justa avaliação de uns e de outros.”

A única revolução possível é dentro de nós

Uma civilização é julgada pelo tratamento que dispensa às minorias."

Mahatma Gandhi (Mahatma, do sânscrito "grande alma")

Se eu pudesse deixar algum presente a você,

deixaria aceso o sentimento de amor à vida dos seres humanos.

A consciência de aprender tudo o que nos foi ensinado pelo tempo afora.

Lembraria os erros que foram cometidos, como sinais

para que não mais se repetissem.

A capacidade de escolher novos rumos.

Deixaria para você, se pudesse, o respeito aquilo que é indispensável:

alem do pão, o trabalho e a ação.

E, quando tudo mais faltasse, para você eu deixaria, se pudesse, um segredo.

O de buscar no interior de si mesmo a resposta para encontrar a saída.

Mahatma Gandhi

Não tente adivinhar o que as pessoas pensam a seu respeito.

Faça a sua parte, se doe sem medo.

O que importa mesmo é o que você é...

Mesmo que outras pessoas não se importem.

Atitudes simples podem melhorar sua vida.

Não julgue para não ser julgado...

Um covarde é incapaz de demonstrar amor, isso é privilégio dos corajosos.“

(Mahatma Gandhi)

frases

"...Como houve em nós amor


E deixou de o haver?

Sei que hoje é vaga dor

O que era então prazer...

Mas não sei que passou

Por nós e acordou..."



Pessoa

Caio Fernando Abreu

Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros

Miguel Torga

Nasci subversivo.

A começar por mim - meu principal motivo

de insatisfação.

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."



- por João Guimarães Rosa

"Às vezes, quase acredito que eu mesmo,

João, seja um conto contado por mim."



- João Guimarães Rosa, por ele mesmo –



Caio Fernando Abreu

"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez."

Todas do Caio F. Abreu

...E minha vida não passa de um ontem não resolvido.

“Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia.”





Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar “





só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte







"Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica, psicanálise, drogas, acupuntura, suicídio, ioga, dança, natação, cooper, astrologia, patins, marxismo, candomblé, boate gay, ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?"

Os sobreviventes



"Um dia tu vais compreender que não existe nehuma pessoa totalmente má, nehuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos. E sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí sim, todos te virarão as costas e te acharão mau por não quereres entrar na ciranda deles, compreendes? "



“Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, sou definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto mas, se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada."



"Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. "





"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro”.





O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.



Vinícius de Moraes



Ao fim da vida, em conversa com o escritor H. F. Peters, Lou Andreas-Salomé proferiu a síntese de sua caminhada:



A vida humana – na verdade, toda a vida – é poesia. Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia, fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade inviolável, ela nos vive”.

A Moral não me ajuda. Sou antagônico nato. Sou uma daquelas pessoas que são feitas para exceções, não para regras.

(De Profundis)



Oscar Wilde

Alberto Caiero

(...)Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez em quando infeliz

Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se.

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva (...)





Alberto Caiero

Lya Luft

Não somos nem bons nem maus:


somos tristes. Plantados entre chão

e estrelas, lutamos com sangue,

pedras e paus, sonho

e arte.



Nem vida nem morte:

somos lúcida vertigem,

glória e danação. Somos gente:

dura tarefa.

Com sorte, aqui e ali ternura

faz parte.



Lya Luft

Miguel Reale

memória




Quando a existência chega a uma curva

que nada nos aponta no caminho

a glória conquistada fica turva,

a coroa ferindo mais que o espinho.



Ter saudade de erros e perigos

e até da injúria em horas desiguais,

é como reprisar filmes antigos

sem gosto de viver tempos atuais.



O surpreendente em nossa trajetória

é percebermos, ao galgar um cume,

que só nos resta o espelho da memória.



Como é sombria essa luz do ocaso

quando a esperança toda se resume

no fruto amargo que nos der o Acaso!







Miguel Reale

Clarice Lispector

------estou procurando,estou procurando.


Estou tentando entender.

Tentando dar a alguém o que vivi

E não sei a quem,mas não quero ficar com que vivi.

Não sei o que fazer do que vivi,

tenho medo dessa desorganização profunda.

Não confio no que me aconteceu.

Aconteceu-me alguma coisa que eu,pelo fato

De não saber como viver,vivi uma outra?

A isso quereria chamar desorganização,e teria

A segurança de me aventurar,porque saberia depois

Onde voltar:para a organização anterior.

A isso prefiro chamar desorganização pois

Não quero me confirmar no que vivi –

Na confirmação de mim

eu perderia o mundo como eu o tinha,

e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira,

Estarei perdida porque não saberei onde engastar

Meu novo modo de ser-

se eu fosse adiante nas minhas

Visões fragmentárias,

o mundo inteiro terá de se transformar

para eu caber nele (...)

A paixão segundo GH – Clarice Lispector

A.Bueno

Este teu olhar...


Há, neste olhar com que me olhas,

alguma coisa a mais que não defino,

algo assim inacessível

e ao mesmo tempo tão chegado.



Há, neste olhar com que me olhas,

uma luz profunda

que me embriaga

e me faz tremer,

ciente de que me vês.



Há, em teu olhar

e no teu jeito,

alguma coisa de íntimo

que me arrebata,

e me atira

num deslumbramento

febril, inebriante.



Sei que me sentes,

embora sem palavras

nos falamos.

Tu sabes que sou a meta,

eu sei que tu és o fim. * A.Bueno

anônimo - desconheço a autoria

"Em algum lugar destas terras,


há um doce olhar só para você...

Um olhar especial, de alguém especial

Um olhar de um justo coração que pulsa só a vida,

que sorri porque ama plenamente sem julgamentos,

preconceitos, nem distinções.

Hoje, como ontem, longe desses céus,

há um encantado olhar só para você...

e nesse olhar vai para você a magia da luz,

a simplicidade do perdão, a força para comungar uma vida.

Hoje, de algum lugar dentro de você,

alguém que já a amou muito,e ainda a ama,

diz para você que valeu a pena ter estado nestas terras,

sob estes céus.

Poder sentir a força que faz você sorrir

e continuar o caminho..

que um dia aquele doce olhar iniciou para você.

Tudo isso, só para você saber que a vida continua...

E que a morte, é uma viagem." ...anônimo

AlexSimas

Sylvio Brasil)




Sozinho...



Minha razão me preserva

Minha emoção me suicida

E na ânsia de morrer

Desejo viver, sem saber por quê



Estou cansado, muito cansado

Sigo por ruas de muitas esquinas

Vias que me levam, apenas sigo

Ando por entre uma multidão solitária

Invisível, não me vejo não me sinto



No sorriso a placa da modelo um rosto

Zomba de minha dor, do anúncio a mensagem

Você pode ser feliz! Como se felicidade

Fossem pílulas ou saches de chá.



No papel um rasgo da boca no canto

Deforma, transforma o antes riso

A agora modelo coringa parece buscar

Nas trevas da justiça o cavaleiro

Seu Batman perdido



Sigo preso na força da camisa

Prisma da visão perdida

Foco da crença que me move

Conseguir viver no sempre que é esse agora

Olhar para trás tentando ver...

... Em que parte do caminho me perdi de você



(AlexSimas)

Sylvio Brasil

Distante


Afago meu coração fortuito

Que de amar ganhou teus anos

Na distância que se aproximou muito

Contra o peito inflado de derramar tantos



Dançavas com minhas meninas loucas

De vivacidade no canto de um olhar menina

Vencendo tuas fases que não foram poucas

Vertendo uma felicidade que o coração anima



Sem oportunidades de se olhar por fora

Pousastes nas minhas estrofes ainda distraída

Para alegrar minutos que se passaram hora

Na minha inadvertida busca te encontrar saída



Docemente assanha um sorriso brejeiro

Que me desmancha rugas desses passados anos

Como se fosse um vento de espreitar certeiro

No meu lado patente de renovar de anjos.



(Retalhos/Sylvio Brasil)

Affonso Romano de Sant´Anna

Começo a olhar as coisas


como quem, se despedindo,

se surpreende

com a singularidade

que cada coisa tem

de ser e estar.



Um beija-flor no entardecer desta montanha

a meio metro de mim, tão íntimo,

essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,

a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas

daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas

quanto mais habito a noite!



Nada mais é gratuito, tudo é ritual

Começo a amar as coisas

com o desprendimento que só têm

os que amando tudo o que perderam

já não mentem.







Affonso Romano de Sant´Anna

CLARISSE LISPECTOR

Borboleta é uma pétala que voa...CLARISSE LISPECTOR

Ter dentro

de mim o contrário do que sou é em essência imprescindível...CLARISSE LISPECTOR



Milagre é uma atitude assim como o girassol vira lentamente

sua abundante corola para o sol. O milagre é a simplicidade

última de existir. O milagre é o riquíssimo girassol se explodir de caule,

corola e raiz — e ser apenas uma semente. Semente que contém o futuro.

CLARISSE LISPECTOR



Eu gosto um pouco de mim porque sou adstringente. E

emoliente. E sucupira. E vertiginosa. Estrugida. CLARISSE LISPECTOR- Um sopro de Vida



É que eu sou endêmica.

Não agüento muito tempo um sentimento porque passo a ter

angústia e meu pensamento fica ocupado com o sentimento e eu me

desvencilho dele de qualquer jeito para ganhar de novo a minha liberdade

de espírito. Sou livre para sentir. Quero ser livre para raciocinar. Aspiro a

uma fusão de corpo e alma.Não consigo compreender para os outros. Só

na desordem de meus sentimentos é que compreendo para mim mesma e

é tão incompreensível o que eu sinto que me calo e medito sobre o nada.-
Angela –Clarisse Lispector em Um sopro de amor

Clarice Lispetor

"Não, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra aí que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida. Tomo conta para não me ultrapassar. Há nisto tudo aqui grande contenção. E então fico triste só para descansar. Chego a chorar manso de tristeza. Depois levanto e de novo recomeço."








"O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe e existe o mundo. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão leve. É uma lucidez de quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isso: sabe. Não me pergunte o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se"





(Água Viva - Clarice Lispetor)

Cecília Meireles

Canção do caminho



Por aqui vou sem programa,

sem rumo,

sem nenhum itinerário.

O destino de quem ama

é vário,

como o trajeto do fumo.



Minha canção vai comigo.

Vai doce.

Tão sereno é seu compasso

que penso em ti, meu amigo.

- Se fosse,

em vez da canção, teu braço!



Ah! mas logo ali adiante

- tão perto!-

acaba-se a terra bela.

Para este pequeno instante,

decerto,

é melhor ir só com ela.



(Isto são coisas que digo,

que invento,

para achar a vida boa...

A canção que vai comigo

é a forma de esquecimento

do sonho sonhado à toa...)

Cecília Meireles

A. Severo Netto

Canto de Quase Inverno




Bêbado de silêncio e de distância

de tempo pré-velhice e pós-infância

diagonalizei-me em desvario

Fui de mim mesmo alga e cogumelo

transfixando amarra, laço e elo

na plenicarne vasta do vazio



Sufocado de treva e desencanto

de tempo pré-raiz e pós-espanto

verticalizei-me em desatino

Fui de mim mesmo início, fim e meio

trajado de amarelo desnorteio

louco sextante sem mostrar destino



Cansado de aclive e de abandono

de tempo pré-inverno e pós-outono

horizontalizei-me em desconforto

Fui de mim mesmo imagem, sombra e medo

despí-me de alarde e de segredo

colhí as velas...

...e arribei ao porto.



A. Severo Netto (Augusto 1976)

Murilo Mendes

Cantiga de Malazarte




“Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,

ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.

Não desprezo nada que tenha visto,

todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.

Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,

destelho as casas penduradas na terra,

tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.

Desloco as consciências,

a rua estala com os meus passos,

e ando nos quatro cantos da vida.

Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,

não posso amar ninguém porque sou o amor,

tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos

e a pedir desculpas ao mendigo.

Sou o espírito que assiste à Criação

e que bole em todas as almas que encontra.

Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.

Nada me fixa nos caminhos do mundo”.



Murilo Mendes

In ‘Poemas’ ( 1930

Poema Dialético



É preciso conhecer seu próprio abismo

E polir sempre o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:

Nossa existência é uma vasta expectação

Onde se tocam o princípio e o fim.

A terra terá que ser retalhada entre todos

E restituída em tempo à sua antiga harmonia.

Tudo marcha para a arquitetura perfeita:

A aurora é coletiva.



Murilo Mendes

SOMOS TODOS POETAS



Assisto em mim a um desdobrar de planos.

as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,

A luz desce das origens através dos tempos

E caminha desde já

Na frente dos meus sucessores.

Companheiro,

Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.

Sou todos e sou um,

Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,

Pelos gritos isolados que não entraram no coro.

Sou responsável pelas auroras que não se levantam

E pela angústia que cresce dia a dia.



Murilo Mendes

OSSOS DE BORBOLETA



"São lindos os ossos de borboleta. Bem sei que só existem em sentido figurado; ninharias que lhes deram o nome; um ceitil, um sexto de real ou do irreal, um milésimo do zero. Mas acredito teimosamente na existência dos ossos de borboleta."

"Bem sei que por exemplo os ossos de siba ou sépia são admiráveis; tanto assim que o poeta Montale batizou Ossi di seppia um dos seus melhores livros. Bem sei que o molusco de que é tipo a Sepia officinalis tornou-se precioso até na oficina do pintor."



"Mas os ossos de borboleta! Que finura, que delicadeza! Voam. "



Murilo Mendes

in Poliedro

Ainda não estamos habituados com o mundo

Nascer é muito comprido.





Murilo Mendes

[...] Penso que todos os homens possuem o germe da poesia. Nem todos, porém, sabem ou podem comunicar a poesia em forma persuasiva. A missão particular do poeta consiste em desvendar o território da poesia, nomeando as coisas criadas e imaginadas, instalando-as no espaço da linguagem, conferindo-lhes uma dimensão nova.

Além de recorrer ao seu tesouro pessoal, à sua vivência, o poeta se inspira no inconsciente coletivo, rico em símbolos, imagens e mitos. Da linguagem universal extrai a sua linguagem específica. A linguagem, ao mesmo tempo que informa o poeta, revela-lhe sua fisionomia pessoal.

Resumindo, pode-se dizer que a operação poética é baseada em linguagem, afetividade e engenho construtivo. O poeta escreverá, portanto, para manifestar suas constelações próprias.



Murilo Mendes

Cecília Meireles

Cântico II




Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens...

Não queiras ser o de amanhã.

Faça-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabes que serás assim para sempre

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue:

É a passagem que se continua.

É a eternidade.

És tu.

Cântico XVII



Perguntarão pela tua alma.

A alma que é ternura,

bondade,

tristeza,

amor.

Mas tu mostrarás a curva do teu vôo

livre, por entre os mundos...

E eles compreenderão que a alma pesa.

Que é um segundo corpo,

e mais amargo,

porque não se pode mostrar,

por que não se pode ver






Sou entre flor e nuvem,

estrela e mar

Por que havemos

de ser unicamente humanos,

limitados em chorar?



Não encontro caminhos

fáceis de andar.

Meu rosto vário

desorienta as firmes pedras

que não sabem de água e de ar.



E por isso levito.

É bom deixar

um pouco de ternura

e encanto indiferente

de herança, em cada lugar



Rastro de flor e estrela,

nuvem e mar.

Meu destino é mais longe

e meu passo mais rápido:

a sombra é que vai devagar.

Cecília Meireles

Hilda Hilst

CANTARES DO SEM_NOME E DE PARTIDAS


I





Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua do estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.



Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena. E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.



Que este amor só me veja de partida.

II





E só me veja

No não merecimento das conquistas.

De pé. Nas plataformas, nas escadas

Ou através de umas janelas baças:

Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias.

E só me veja no não merecimento e interdita:

Papéis, valises, tomos, sobretudos



Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar

de púrpura e desgosto, vendo através de mim

navios e dorsos).



Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.

Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis

Machucadas de gozo.



E que jamais perceba o rocio da chama:

Este molhado fulgor sobre o meu rosto.

III





Isso de mim que anseia desepedida

(Para perpetuar o que está sendo)

Não tem nome de amor. Nem é celeste

Ou terreno. Isso de mim é marulhoso

E tenro. Dançarino também. Isso de mim

É novo: Como quem come o que nada contém.

A impossível oquidão de um ovo.



Como se um tigre

Reversivo,

Veemente de seu avesso

Cantasse mansamente.



Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.

Como pode ser isto? Ser tenro, marulhoso

Dançarino e novo, ter nome de ninguém

E preferir ausência e desconforto

Para guardar no eterno o coração do outro.

IV





E por que, também não doloso e penitente?

Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.

E isso sem nome, o despedir-se sempre

Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias

Isso sem nome fere e faz feridas.

Penitente e algoz:

Como se só na morte abraçasses a vida.



É pomposo e pungente. Com ares de santidade

Odores de cortesã, pode ser carmelita

Ou Catarina, ser menina ou malsã.



Penitente e doloso

Pode ser o sumo de um instante.

Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.

Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo



Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.

V





O Nunca Mais não é verdade.

Há ilusões e assomos, há repentes

De perpetuar a Duração.

O Nunca Mais é só meia-verdade:

Como se visses a ave entre a folhagem

E ao mesmo tampo não

(E antevisses

Contentamento e morte na paisagem).



O Nunca Mais é de planícies e fendas.

É de abismos e arroios.

É de perpetuidade no que pensas efêmero

E breve e pequenino

No que sentes eterno.



Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

VI





Tem nome veemente. O Nunca Mais tem fome.

De formosura, desgosto, ri

E chora. Um tigre passeia o Nunca Mais

Sobre as paredes do gozo. Um tigre te persegue.



E perseguido és novo, devastado e outro.

Pensas comicidade no que é breve: paixão?

Há de se diluir. Molhaduras, lençóis

E de fartar-se,

O nojo. Mas não. Atado à tua própria envoltura

Manchado de quimeras, passeias teu costado.



O Nunca Mais é a fera.

VII





Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.

Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos

Porque me fiz tanto de ressentimentos

Que o melhor é partir. E te mandar escritos.

Rios de rumor no peito: que te viram subir

A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras

Mas com a mulher, aquela,

Que sempre diante dela me soube tão pequena.

Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.

Perdi-me tanto em ti

Que quando estou contigo não sou vista

E quando estás comigo vêem aquela.

VIII





Aquela que não te pertence por mais queira

(Porque ser pertencente

É entregar a alma a uma Cara, a de áspide

Escura e clara, negra e transparente), Ai!

Saber-se pertencente é ter mais nada.

É ter tudo também.

É como ter o rio, aquele que deságua

Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.

Aquela que não te pertence não tem corpo.

Porque corpo é um conceito suposto de matéria

E finito. E aquela é luz. E etérea.



Pertencente é não ter rosto. É ser amante

De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.

Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.

É vida e ferida ao mesmo tempo, “ESSE”

Que bem me sabe inteira pertencida.

IX





Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem.

Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.

E pensas maravilha quando pensas anca

Quando pensas virilha pensas gozo.

Mas tudo mais falece quando pensas tardança

E te despedes.

E quando pensas breve

Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano

Que te espia, e espia o pouco tempo te rondand o a ilha.

E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas

Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando



Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo

Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...

Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade

A esperança.

X





Como se fosse verdade encantações, poemas

Como se Aquele ouvisse arrebatado

Teus cantares de louca, as cantigas da pena.

Como se a cada noite de ti se despedisses

Com colibris na boca.

E candeias e frutos, como se fosses amante

E estivesses de luto, e Ele, o Pai

Te fizesse porisso adormecer...

(Como se se apiedasse porque humana

És apenas poeira,

E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).



Como se fosse vão te amar e por isso perfeito.

Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.

E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego

O Seguidor disso sem nome? ISSO...



O amor e sua fome.



Hilda Hilst