segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quando
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga

Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu

ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma

Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar

Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido

É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele

Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua

Que o terror é esquecido
Por um instante florido!

Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....

Armindo Trevisan

A LUZ DE TUA PELE

À luz de tua pele invento a noite.
Nela me embrenho até à morte alheia.
Ninguém é mais sozinho do que o açoite
que apaga tua luz, e me incendeia.

Armindo Trevisan

Mario Quintana

PEQUENO ESCLARECIMENTO

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo

Canção do dia de sempre


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana
PRESENÇA
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Mario Quintana

ARTE POÉTICA
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.
Mario Quintana (Caderno H)
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LIÇÃO DE SER..POETA
A VOZ
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.
Mario Quintana (Caderno H)

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[CARTA

Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano
O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana
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A COISA
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Mario Quintana (Caderno H)

Cecília Meireles

Por aqui vou sem programa, sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse, em vez da canção, teu braço!

Ah! mas logo ali adiante - tão perto!- acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante, decerto, é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo, que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)

Cecília Meireles
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TRÊS ORQUÍDEAS



As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda pureza,
com uma leve mácula violácea para uma pureza de sonho triste, um dia.

Que dia? que dia? dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! não me vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o terno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídedas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não vêem o mundo, que o muno as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E apira sobre elas a gentileza igualmente frágil,
a gentlileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro amado onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurares em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem,
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.


Cecília Meireles
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CANÇÃO MÍNIMA


No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.



Cecília Meireles
Publicado no livro "Antologia Poética" de l.963

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EPIGRAMA N°5


Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exacto.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.



Cecília Meireles,
Viagem

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INSCRIÇÃO


Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança,em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.


Cecília Meireles

Eduardo Carranza

ANDA O TEMPO'


Olha o tempo, caído nessas pétalas
e evaporado nessas vagas nuvens,
olha-o no olhar e no sorriso
em que os belos rostos se desfolham.

Anda o tempo, anda o tempo, o sem-cessar
abrindo flores e fechando pálpebras;
com pés de névoa e de silêncio anda
frutas e corações amadurecendo.

Ouve o passo do tempo como pisa
meu coração, as uvas e os sonhos;
ouve o rio do tempo como cruza
terras floridas, jovens comarcas...

Vem, senta-te à direita de minha alma,
à margem do rio do crepúsculo,
e oponhamos ao tempo, ao inimigo,
a doçura de sermos dois na tarde.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa
...


O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e
depois desinquieta. O que ela
quer da gente é coragem.


João Guimarães Rosa

"Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de
estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou,amigo,é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é."

"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas."

João Guimarães Rosa

Amálio Pinheiro

POEMA

Ébrio de seios, incerto de contornos,
vou cortando a segunda-feira
com meus dentes cerrados.

Vou contra os ossos da tarde
como um bêbado vai contra seus muros
como a alma procura suas tábuas
como a terra buscando seus enterros.

Acaricio as lâminas da vida,
sou gumes cortando o meio-dia,
vou contra os esqueletos da tarde:
sou vento sul, latido, chuva miúda,
meus dentes beijam lápides e facas
e ferrugens e azinhavres tristes de cozinha.

(Beijos como cotovelos cansados
que sangram nas amuradas tardias.
Beijos a golpes, beijos contra.
Beijos dente a dente, como morder
um bom pedaço de história,
ou descobrir um fóssil com um signo.
Como ir-se de encontro às pedras
mais de dentro, pisando as ternuras.
Como escutar a alma se chocando
osso a osso, contra as paredes do tempo.)


Amálio Pinheiro
(de "Tempo solto", 1972)

GILBERTO MENDONÇA TELES

GILBERTO MENDONÇA TELES
Criação



O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
tímidos,
embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.


No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
a meia-luz,
os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
e se apagam de repente.


No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
como um dia de festa, ou de verão.

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No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
roendo,
roendo
um osso duro de roer.


GILBERTO MENDONÇA TELES

Alphonsus de Guimaraens Filho

A Todos os Poetas

A todos vós que um dia pressentistes
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes

para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz

de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para

reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Sonetos com dedicatória (1956).

DOS POEMAS

Não de vento os formei, mas do meu barro.
Não lhes dei sentimento, mas meu sangue.
Acolhe-os, pois, ainda que sejam turvo
rio a cruzar as terras que erigiste
no teu sonho maior, mesmo que sejam
somente um vago eco, um arfar penoso
de barro, solidão, de cinza e sangue.

Alphonsus de Guimaraens Filho

SONETO

A uma réstia de sonho chamam vida.
A uma sombra maior chamam-lhe morte.
Vida e morte, não mais, pouso e suporte,
sopro de permanência e despedida.

Uma treva febril noite é chamada.
A uma luz mais febril chamam-lhe dia.
E entre elas se põe a estrela fria
que irrompe como flor da madrugada.

Paira em tudo um silêncio que anoitece,
que amanhece, e que vence todo ruído,
e como sol não visto num perdido
horizonte se esfaz e se retece.

Tudo é longe demais, por demais perto.
E a alma, que faz neste feroz deserto?

Alphonsus de Guimaraens Filho

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

MILAN KUNDERA

Outrora, eu também considerei o futuro como único juiz

competente de nossas obras e de nossos atos.

Mais tarde é que compreendi que o namoro com o futuro

é o pior dos conformismos, a covarde adulação do mais forte.

Pois o futuro é sempre mais forte que o presente.

É realmente ele, com efeito, que nos julgará.

E, certamente, sem nenhuma competência.



MILAN KUNDERA

Dostoiévski

enta uma experiência e constrói um palácio. Equipa-o com mármore, quadros,

ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas…

E entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair de lá.

Talvez, de fato, nunca mais saísses de lá. Tudo está lá!

"Estou muito bem aqui sozinho!".

Mas, de repente — uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros,

e é-te dito: “Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!".

Então, creia-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu

paraíso e pular por cima do muro. Ainda mais!

Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento.

Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo…

Sim, apenas uma coisa te falta: um pouco de liberdade!

Um pouco de liberdade e um pouco de liberdade.



(Fiódor Mikhailovich Dostoiévski)

Juan de Nadie


Andar só em noites sem lua.
Acariciar as curvas meandrantes
de uma anatomia imaterial,
encarnando, vazia, o inefável.

O amarelo mercúrio incandescente
pende, tão óbvio, ladeando ruas,
iluminando, entre o vegetar das árvores,
toda a ausência do que não está.

O vento uiva discreto,
trocando confidências
com o concreto frio
- plateia inanimada
da cidade inerte
em madrugadas mortas.

As janelas piscam ao longe,
denunciando as ânsias
de um qualquer insone.

A angústia mora no descompasso,
na assincronia das presenças.
Calçadas embalando os tropeços
do movimento das tardes,
lamentam o recolher do passos
que repousam à noite.
Nada angustia mais do que o espaço
quando não há ninguém para preenchê-lo.

Há coisas que a luz do sol esconde,
e que a escuridão insiste em revelar.
Os buracos do quem, do quando e do onde,
preenchem-se nas ilusões diurnas.
À noite, ilusões se desfazem
e a lua nova mostra
tudo aquilo que não há.

(Juan de Nadie -
(08-02-2011)
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José Saramago

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Rainer Maria Rilke

Minha Vida Não É...


Minha vida não é essa hora abrupta
Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…

Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.

Rainer Maria Rilke
Tradução: Guilherme de Almeida


Poema dedicado a Lou-Andreas Salomé, que quase se chegou a perder.

“Lösch mir die Augen aus: ich kann Dich sehn
Wirf mir die Ohren zu: ich kann Dich hören
Und ohne Fuss noch kann ich zu Dir gehn
Und ohne Mund noch kann ich
Dich beschwören.
Brich mir die Arme ab: ich fasse Dich
Mit meinem Herzen wie mit einer Hand
Reiss mir das Herz aus: und mein
Hirn wir schlagenund wirfst
Du mir auch in das
Hirn den Brand
So will ich Dich auf meinem Blute tragen.



Apaga-me os olhos: e ainda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: e ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue".


Tradução; Paulo Quintela

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...

Daniel Costa-Lourenço

ENFIM
"Podia saber mais de tudo"

Podia saber mais de tudo,
Deixar-me enredar nesses enganos,
Confiar na incerteza de outros dias.
Podia renegar-me, talvez nunca como agora,
Podia saber quem eras tu e os demais,
Fintar o futuro e o passado,
Que o acaso fosse concreto e determinado.

Podia não estar aqui,
Ser material de outra estrutura,
Escolher a chuva que me ensopa,
Queimar-me ao vento, ao sul,
Onde o sal soubesse tanto a despedida como eu,
Para que me esqueça delas, enfim.

É melhor assim...
O peito aberto, sem condições e tratados,
Morder o presente, mutilado,
Querer o mais difícil dos prazeres,
Esquecer o amargo das canções,
Enfim.

Daniel Costa-Lourenço in "Heróis (chamamento)", Chiado Editora, s/c., 2010, p 74

Alice Macedo Campos

Alice Macedo Campos -
vacila e treme o homem que entra neste verso. não usa roupa ou adereços, não corta as unhas dos pés, e sai-lhe do queixo uma cauda de pêlo comprido que lhe tapa o sexo. mantém o braço esquerdo erguido e fala com a mão. articula um diálogo perfeito, faz duas vozes, a dele próprio e outra feminina e doce. se na sua diz nunca te deixarei, na outra diz serei sempre tua. quando se cansa de falar, leva a mão à testa e pestaneja sobre ela.


o poeta que tem um homem nu num verso, não sabe o que há-de fazer. fica paralisado enquanto ouve a conversa dele com a sua mão.

na sua voz diz:

dá-me por esta noite a carne ainda quente de um beijo,
uma pedra de fogo que possa incendiar outra pedra,
dois remos para navegar águas escuras,
águas tão densas como as que nascem da montanha,
um rio, meu amor, dá-me por esta noite um rio
que comece no teu corpo de neve,
atravesse o tempo, a luz vertiginosa,
e se afogue nos meus olhos.

na outra voz responde:

eu dou-te o nome do silêncio, uma
casa onde possas habitar até que
a morte nos restitua, um livro para
me escreveres o sol claríssimo, as
azeitonas fazendo o virgem óleo.

o poeta chora. lê a biografia do homem e compreende. foi ele quem guardou o último suspiro da amada na mão que lhe amparava o rosto. desde então, conversa com ela para suportar.

António Quadros Ferro

SOBRE A ETERNIDADE

Perguntaste-me há quanto tempo
as folhas se levantam sem cair.
Falavas se calhar da eternidade sem querer,
da mesma forma inocente com que adormecias
ou pousavas o copo de vinho sobre a mesa.

A única forma encontrada
era a breve inocência das coisas
repousada na tua própria dúvida.

E eu tinha a certeza que não eras daqui,
como eu sou,
como ninguém é.

Verificados todos os silêncios.


António Quadros Ferro, "Um Pouco de Morte", Edição do Autor, 2009.

Alice Macedo Campos

no princípio, somos esta luz queimada de água a água,
o fogo ininterrupto que se alastra na comunhão das margens,
a maré vazia, a mágoa calcinada, a imagem breve da castidade,
trabalhada pela pluma do céu com seu botão de rosa sobre o mar.
no princípio , estamos sóbrios, ignoramos o abismo caminhamos nus,
e se uma música nos toca, encostamos toda a nossa vida um ao outro,
e a luz faz, no chão onde dançamos, as efémeras sombras de uma chama,
que, de hoje para sempre, arderá no mundo à nossa passagem. e temos à
nossa espera, no fim de tudo isto, o medo com os nossos olhos na cara, e,
entre eles, a mesma água que queimou este poema, mas abaixo os braços leves,
convidativos, apetece cair nestes braços e concluir, num só corpo o verbo amar.


Alice Macedo Campos
In: a mulher sus.pensa. Porto. edita-Me, 2011

Casimiro de Brito

DO POEMA

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.

Casimiro de Brito
em Telegramas, 1959

Licínia Quitério

Tem de haver um poema numa pedra de sol,
numa gota de sal, num riacho a florir.
Bem por dentro do vento, há-de estar uma pluma.
Abre a mão e verás uma ave do sul a piar, a piar.
É um espinho, um soluço, uma seta, um trovão?
Um passado, um caminho, uma luz, um porvir.
Música tem de ser o crocitar do corvo,
o choro dos escravos, a saudade, a saudade.
O rosto da infâmia, as mãos da crueldade,
o dorso da inveja, o ventre suicidado.
É urgente o instante de agarrar o poema,
desvendar a palavra, vesti-la, devorá-la,
fazer com ela amor.
Esperar a chuva e a serenata, a tília e o luar.
O inominado, o inacabado, o imperfeito,
a vida.

Licínia Quitério

António Cabrita

Uma grande tentação se oferece ao homem, a de exercer a sua capacidade mais superlativa e radical: criar. Eis porque não se trata de ver o poema. Paul Éluard dizia justamente que o poema consiste em dar a ver, em mostrar o mundo, em mostrar o que a quotidianidade nos dissimula e nos esconde a inanidade da vida. Dar a ver a realidade substancial do homem, o que a nossa precariedade, a nossa incapacidade, os constrangimentos da existência, nos furtam e o que nos escapa por sermos inaptos para responder directamente à exigência absoluta. Direi mais: não basta dar a ver. Trata-se de dar a criar, de um incitamento a se re-criar.

António Cabrita

Fabricio Carpinejar

Sem explicαção, ordem e motivo, me αrde umα αlegriα, que não αceitα ser felicidαde, porque α felicidαde é umα pαlαvrα muito longα e α αlegriα tem pressα. Não sei se é umα αlegriα herdαdα, umα αlegriα que esbαrrou em mim e que me sαlvou de ter pensαdo demαis pαrα devolvê-lα. Umα αlegriα que é musculαr, como se o αr fosse umα guitαrrα encordoαndo o αr, e houvesse um αmor me pedindo pαrα fαlαr bαixo nos ouvidos ou umα criαnçα me chαmαndo pelo αpelido que esqueci. Umα αlegriα sem dono, que poderiα ser umα ovelhα de águα, umα orelhα de mαr, um poço com hálito de cαfé, umα figueirα entrαnhαdα de pedrαs, o bαrulho αlαrαnjαdo do portão que denunciα α visitα, α tosse do fogo, αs ervαs e suαs cαrtαs dαtilogrαfαdαs sem αcento. Umα αlegriα de deitαr nα grαmα e sentir que está molhαdα e não se importαr com α roupα orvαlhαdα e não se importαr com α horα e com os modos, umα αlegriα que é inocênciα, mαs sem culpα pαrα αcαbá-lα. .

Fabricio Carpinejar

Victor Oliveira Mateus

Para uma leveza possível II



Creio na finita circularidade do tempo.
Creio nas coisas nele desenhadas, nas que
o circundam, nas que o acrescentam e, ainda,
naquelas que um dia foram e hoje subsistem
em forma de mágoa ou de ternura farta
e irrepetível. Creio neste terraço: soalheiro,

carcomido pelo uso, aberto a uma vastidão
que intuo mas não explico. Creio no frémito
dos pássaros, ao fundo, por entre os castanheiros
e a auto-estrada que hoje à cidade me não leva.
Creio no serpentear das vespas no meio do verde
com seus aguilhões açulados, suas danças

enfeitiçadas, sua indiferença quase humana
tão à margem de tudo. Creio na lustrosa lousa
onde me apoio, luminária quase extinta para
o subtil enfeite das palavras. Aquelas com
que vejo, com que penso, com que escrevo;
aparentemente as mesmas, mas sempre

em desacerto: chocalhar de falho siso
na infindável desordem do mundo. Creio
na capacidade de nos transformarmos,
a partir de dentro, por um ousado valer
a pena. E creio, por fim, nesta insustentável
leveza, a evolar-se, difusa – território
de abandono, trajecto de recusa.


Victor Oliveira Mateus

Walt Whitman

Walt Whitman

...as delícias do céu estão em mim...


Eu sou o poeta do corpo

Eu sou o poeta do corpo
e sou o poeta da Alma,
as delícias do céu
estão em mim
e os horrores do inferno
estão em mim
- o primeiro eu enxerto
e amplio ao meu redor
o segundo eu traduzo
em nova língua

Álvaro Pacheco

A Hora Neutra


XII

A pior hora é a hora neutra
nem morte nem fogo
branca branca branca
de ódio e de amor.
a pior hora é a hora neutra
que passa intacta e longa
cobrindo feridas sem fechá-las
lambendo sem morder a pele nua.
A pior hora é a hora neutra
o momento transparente e insone
vácuo de sal e sangue dessa vida
carregada de tuas horas emprenhadas
de desespero, gozo e solidão.

dez. 66

Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas"(1984)

Haruki Murakami

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido."


Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'

ANA HATHERLY

A INVENÇÃO DA RESPOSTA

a invenção da resposta

outrora
em riste
o passo mítico espantoso condensava
da santidade
o insurrecto pudor
o gelo do rubor
a pressa cerrada

agora
em triste
vacuidade
o desafio que expande
cede
degola
o desgarrado nexo do rasgo

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UM CALCULADOR DE IMPROBABILIDADES


O poeta é
um calculador de improbabilidades limita
a informação quantitativa fornecendo
reforçada informação estésica.
É uma máquina eta-erótica em que as discrepâncias
são a fulgurância da máquina.
A crueldade elegante da máquina resulta da
competição pirotécnica da circulação íntima
e fulgurante do seu maquinismo erótico.
A psicologia do maquinal sabe que basta
que se crie um pólo positivo para que o pólo
negativo surja
ou vice-versa
e as evoluções telecinéticas pela força
das catástrofes desenvolvem suas faculdades
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve
as águas variáveis dos humores
que transforma em polaridade.
O maquinal eta-erótico está em astrogação
curso hipnótico dos polímeros.
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal
circula em sua hiperesfera da maneira mais
excêntrica.
Digo e garanto:
o maquinal absolutamente absorve suas águas
variáveis e isso é o seu amplexo.
O maquinal eta-erótico é tu-eu.
O maquinal tu-eu
cuja tarefa árdua não é
definir a verdade está no meio da profusão
dos objectos
e considera o consumo a verdade deslocada
deslocação de grande tonelagem
laboriosa alfaiataria de eros
constante moribunda
e esse opróbrio dispersivo e vexável
indifere a vida esponjosa.
A história agrega a dificuldade essencial
das variáveis e o ensejo das coisas
prática difícil
está para o maquinal como uma indústria apócrifa
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VISUALIDADES DE HATHERLY
O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.



O POETA É UM GUARDADOR

o poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz

SABER

saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir

unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser

por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos

conhecermos
a surda áspide

ANA HATHERLY
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o domínio da letra

ANA HATHERLY


A FELICIDADE É UM TUNEL


o domínio

o erotismo do domínio

do domínio irrisório

mas enorme

submeter
ver tremer
ver o tremor do outro

vencer
o gelo
o desdém
veloz

a felicidade é um túnel

CRUZ E SOUSA

CAVADOR DO INFINITO


Com a lâmpada do Sonho desce aflito
e sobe aos mundos mais imponderáveis,
vai abafando as queixas implacáveis,
da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito
sente, em redor nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
o cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
e o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho
e com seu vulto pálido e tristonho
cava os abismos das eternas ânsias!

(In: Últimos sonetos) CRUZ E SOUSA

HILDA HILST

V

Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco
À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta
Senhor dos porcos e de homens:
Ouviste acaso, ou te foi familiar
Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve
O verbo amar?

Porque na cegueira, no charco
Na trama dos vocábulos
Na decantada lâmina enterrada
Na minha axila de pelos e de carne
Na esteira de palha que me envolve a alma

Do verbo apenas entrevi o contorno breve:
É coisa de morrer e de matar mas tem som de sorriso.
Sangra, estilhaça, devora, e por isso
E entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.

É verbo?
Ou sobrenome de um deus prenhe de humor
Na péripla aventura da conquista?

(In Amavisse)-HILDA HILST

RODOLFO ALONSO

Dones para donar - RODOLFO ALONSO
Dons para dar

O que me deram dou-te.
Dou aquele sagrado
cheiro a terra molhada
e essa voz que é o vento
por entre as ramas altas.

Quanto tive devolvo:
as árvores irmãs,
as flores que modula
a névoa, o grilo, o pássaro
cantando na garoa.

Sem herança ou legado.
Tão-só paixão e tempo.
A intensa vida, o ar,
a manhã radiante
e a celagem nos olhos.

Nada levamos, nada.
É o que merecemos?
A chama do momento,
colorações no sol,
o crepúsculo juntos.

O fogo da fogueira
em que vamos ardendo.

E vejo o que me vê?
No exato instante, o liso,
o claro resplendor
do meio-dia nítido
sobre uma mesa branca

e frutas entoadas
como parentes próximos:
a luz, a gama, o íris,
bananas com limões
e com a maçã verde.

Cabemos bem na chuva,
instantâneos, de súbito,
íntimos e gregários,
próximos e distantes.
A chuva é nosso templo.

A canção evidente,
a palavra encarnada,
o que chegou de fora
porque soava dentro.
Ou não seremos, língua?

E o fogo da espécie,
horizonte e passado.
RODOLFO ALONSO- tradução Anderson Braga Horta

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Epifania
Qual luz dentro da luz
soa o inverno, ao sol.
Serena madurez,
sabor desnudo
que suspende e sustenta
sem suspeitar que sabe,
secreto, só em si,
sente sem sentimento,
a simples sede,
a simples ser,
só e sumo no sol
sagrado do silêncio
seco, soberbo, solto
sobre esse frio incendido.



Epifanía
Como luz en la luz
suena el invierno, al sol.
Serena madurez,
sabor desnudo
que suspende y sostiene
sin sospechar que sabe,
secreto, sólo en sí,
siente sin sentimiento,
a simple sed,
a simple ser,
solo y sumo en el sol
sagrado del silencio
seco, soberbio, suelto
sobre ese frío encendido.



RODOLFO ALONSO

FREDERICO GARCIA LORCA

Este es el prólogo.

Dejaría en este libro
toda mi alma.
Este libro que ha visto
conmigo los paisajes
y vivido horas santas.

¡Qué pena de los libros
que nos llenan las manos
de rosas y de estrellas
y lentamente pasan!

¡Qué tristeza tan honda
es mirar los retablos
de dolores y penas
que un corazón levanta!

Ver pasar los espectros
de vidas que se borran,
ver al hombre desnudo
en Pegaso sin alas,

ver la vida y la muerte,
la síntesis del mundo,
que en espacios profundos
se miran y se abrazan.

Un libro de poesías
es el otoño muerto:
los versos son las hojas
negras en tierras blancas,

y la voz que los lee
es el soplo del viento
que les hunde en los pechos,
entrañables distancias.

El poeta es un árbol
con frutos de tristeza
y con hojas marchitas
de llorar lo que ama.

El poeta es el médium
de la Naturaleza
que explica su grandeza
por medio de palabras.

El poeta comprende
todo lo incomprensible,
y a cosas que se odian,
él, amigas las llama.

Sabe que los senderos
son todos imposibles,
y por eso de noche
va por ellos en calma.

En los libros de versos,
entre rosas de sangre,
van pasando las tristes
y eternas caravanas

que hicieron al poeta
cuando llora en las tardes,
rodeado y ceñido
por sus propios fantasmas.

Poesía es amargura,
miel celeste que mana
de un panal invisible
que fabrican las almas.

Poesía es lo imposible
hecho posible. Arpa
que tiene en vez de cuerdas
corazones y llamas.

Poesía es la vida
que cruzamos con ansia
esperando al que lleva
sin rumbo nuestra barca.

Libros dulces de versos
son los astros que pasan
por el silencio mudo
al reino de la Nada,
escribiendo en el cielo
sus estrofas de plata.

¡Oh, qué penas tan hondas
y nunca remediadas,
las voces dolorosas
que los poetas cantan!

Dejaría en el libro
este toda mi alma...

7 de agosto de 1918.
FREDERICO GARCIA LORCA

Iacyr Anderson Freitas

Palavra carece de pátria

Iacyr Anderson Freitas



PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA


Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.

Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.

Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.

O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.

Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.

Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.

Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.

Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.

VERA LUCIA DE OLIVEIRA

PEDAÇOS

Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

VERA LUCIA DE OLIVEIRA

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro


QUASE


Um pouco mais de sol — eu era brasa.
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

...........................................
...........................................

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Paris, 13 de maio de 1913)

7


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

(Lisboa, fevereiro de 1914)

Maria Gomes

eu acolho-te na fonte de palidez pura

sonhei murar os cristais solares dos liames da loucura
a grande noite.

Maria Gomes


Flávio Cuervo

Estrela Luz
Quantas cores reúnem-se no pôr-do-sol?
Nas infinitas cores que recebemos
E sentimos que somos feitos de luz.

Que mundo recebemos quando nascemos!
Sol que nos aquece e ilumina planetas!
Que mundo recebemos ao olharmos!

Azul, vermelho,
Roxo, anil, espelho.

Laranja, transparência, negra.
Rosa, Pink, lilás.

Noite, verde, marinho.
Dia, fogo, dourado.
Vida, branca do misto.

Branca da perfeição
Da situação divina
Do todo e do nada.

Sentir-se vivo
Ser luz
Já que somos
Poeira estelar
Poeira
Estrela
Ser-Estar.

Aqui
Viver
O aqui.

Estrela de natal
Natalina
Vespertina
Cadente
A Serpente
O Escorpião
A Ursa Maior
Menor
Sagitário
Órion
Via Láctea
Andrômeda
Aquilo que não tem nome.

O silêncio
O frio
O negro
A sua roupa branca.
A leveza, a paz, o Todo.

Filhos das estrelas.
Espelho.
Luz.

Flávio Cuervo
Setembro/2003

Samuel Beckett

NSTANTE

Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se anulam
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
Sem este céu posto de pé
Sobre o pó do seu lastro

Que faria eu eu faria como ontem e como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço incontrolável
Sem voz no meio das vozes
Que se fecham comigo.

Samuel Beckett
(tradução inédita de Mário Carvalheira)

Rui de Morais

Bordada


Cosi-te a mim
em poema
bordadas
as palavras
fios de vida



Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007

Cruz e Sousa

FLOR DO MAR


És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio
que põe rede de sonhos ao navio
e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.
Possuis do mar o deslumbrante afeto,
as dormências nervosas e o sombrio
e torvo aspecto aterrador, bravio
das ondas no atro e proceloso aspecto.
Num fundo ideal de púrpuras e rosas
surges das águas mucilaginosas
como a lua entre a névoa dos espaços...
Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
auroras, virgens músicas marinhas,
acres aromas de algas e sargaços...

Cruz e Sousa

KATHERINE MANSFIELD

"Os céus se abriram para o pôr-do-sol. Quando eu
achava que o dia estivesse dobrado e lacrado, veio
uma explosão de brilhantes pétalas celestiais.
Sentei-me atrás da janela salpicada de chuva e
fiquei olhando. Aquela coisa pesada dentro de
meu peito se dissolveu e se transformou numa
fonte minúscula e murmurante, como no passado,
e eu absorvi o céu e o murmúrio."



KATHERINE MANSFIELD
Diário, 7 de abril/1914 (trecho)
In:"Diário e Cartas"

Eugène Ionesco

«O tédio é pior que a angústia, é mesmo o contrário, quando se está angustiado não se sente tédio; e assim eu passava do tédio à angústia, da angústia ao tédio. Não, já não sinto tédio, não, não pode ser mais nada! Se bem que, lá no fundo, sinta que ela me espreita, me ameaça, e que me pode muito bem vir a crescer, a envolver-me, a atabafar-me. Ah, mas não, o mundo tem imenso interesse, imenso. Basta olharmos. Há gente que se contenta em olhar para as árvores, em passear. Aconselharam-me a passear. Mas esses passeios eram mais entediantes que o próprio tédio, mais tristes do que a tristeza. Oxalá que eu não torne a afundar-me no abismo do tédio. Olhar atentamente em redor, para o mundo; com a maior da atenções. Despi-lo da sua "realidade", lutar por experimentar, a cada passo, o espanto original.»

Eugène Ionesco, "O Solitário", Editora Ulisseia, 1975

Emily Dickinson

O MAR DO CREPÚSCULO


Eis a terra que o crepúsculo banha,
Eis as orlas do Mar Amarelo;
Por onde se ergueu e aonde se abala,
São estes os ocidentais mistérios.

Noite após noite, seu tráfego purpúreo
Cargas de opala pelo cais dispersa;
E mercadores ponderam sobre horizontes,
Calculam rumos e somem em barcos de sortilégio.

Púrpura –
A cor das rainhas é esta –
A cor de um sol, no poente;
- Ainda, além dessa, o âmbar;
E o berilo – se o dia vai a meio.

Quando à noite, porém, amplidões de aurora
Atingem, de súbito, os homens –
Essa cor, e o feitiço, Mas, a Natureza
Reserva um lugar, também, para os cristais de iodo.


Emily Dickinson
in Poemas de Emily Dickinson

Octávio Paz

LA PALABRA DICHA



La palabra se levanta
de la página escrita.
La palabra,
labrada estalactita,
grabada columna,
una a una letra a letra.
El eco se congela
en la página pétrea.

Ánima,
blanca como la página,
se levanta la palabra.
Anda
sobre un hilo tendido
del silencio al grito,
sobre el filo
del decir estricto.
El oído: nido
o laberinto del sonido.

Lo que dice no dice
lo que dice: ¿cómo se dice
lo que no dice?
Di
tal vez es bestial la vestal.

Un grito
en un cráter extinto:
en otra galaxia
¿cómo se dice ataraxia?
Lo que se dice se dice
al derecho y al revés.
Lamenta la mente
de menta demente:
cementerio es sementero,
simiente no miente.

Laberinto del oído,
lo que dices se desdice
del silencio al grito
desoído.

Inocencia y no ciencia:
para hablar aprende a callar.


Octávio Paz

René Char

XVII


Heraclito sublinha a aliança exaltante dos contrários. Vê nelas em primeiro lugar a condição perfeita e o motor indispensável à produção da harmonia. Já aconteceu, em poesia, surgir no momento da fusão desses contrários um impacto sem origem definida cuja acção dissolvente e solitária provoca o deslizar de abismos que conduzem o poema de um modo bastante anti-físico. Cabe ao poeta cercear esse perigo, fazendo intervir um elemento que seja tradicional, de razão comprovada, ou o fogo de uma demiurgia tão miraculosa que anule o trajecto da causa ao efeito. O poeta pode então ver os contrários - essas miragens pontuais e tumultuosas - completar-se, a sua linhagem imanente personificar-se, pois, como se sabe, poesia e verdade são sinónimos.



- René Char
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe: "Não existe paixão por natureza tão demoniacamente impaciente como a de quem, arrepiado à beira de um precipício, contempla um mergulho."
A paixão do poema salta.

Sylvia Beirute

QUIRAL

street street street street street street street street
street street street street
street street street street street street street street
street secret street street
street street street street street street street street
street street street street
street street street street street street street street
street street street street
street street street street street street street street
street street street street
street secret street street
street street street street street street street street
street street street street

um segredo murmura do outro lado
do silêncio
como um pássaro que silencia o ar.

Sylvia Beirute

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ALMA MATER

a arte relevante
não tem como efeito
o de tornar o artista imortal,
mas sim
o de lhe dilatar
a ideia de morte.


Sylvia Beirute

CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

Sylvia Beirute
em Uma Prática para Desconserto
4Águas, 2011

Amo-te assim sem corpo "

amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

Sylvia Beirute in " Uma prática para desconcerto ", 4 Águas, s/c., 2011, p 19.
.

Daufen Bach

(...)eu não queria tentar entender,
das agruras da existência.
viver somente no tempo preciso,
retesar meus músculos lácticos
num colchão macio
e não buscar querer da interpretação, a essência.

mas, neste paradoxo que é o infinito,
acordo sempre entre sístoles e diástoles,
em sinapses sóbrias de intuitos,
sempre com o coração transbordado
de desejos ilícitos.(...)

daufen bach.
Fragmento do poema "conspirações com o pensar e o existir

Gilberto Mendonça Teles

ELIPSE



Vim descobrir o que ficou de elipse
e precisão,
o que se fez sucinto e reticente,
o inacabado do cabo Não.

Vim recolher esta úmida sintaxe
que foi além
e não poupou a rigidez da língua
que ficou sem.

E vim, não para ver, deixar a meio
fala e raiz:
vim extrair de ti a própria essência
do que não fiz.

Gilberto Mendonça Teles

O fazer poético
A poesia mostra ao homem outros sentidos da existência, integra-o na plenitude da sua cultura, dá ênfase ao visível e escancara as janelas do invisível, amplia portanto o seu universo e lhe restitui a ilusão de sua divindade, uma vez que lhe dá o poder da criação através da linguagem. Ela tem a força natural dos álibis - que apontam para um e, ao mesmo tempo, para outro lugar, quase sempre utópico; e tem, como a Sibila o poder encantatório de nos fazer jogar com o sobrenatural. É por isso que os tiranos de todos os tempos e lugares temem os poetas e a poesia. E não é à toa que para Hölderlin ela é ao mesmo tempo a mais inocente das ocupações e o mais perigoso de todos os bens.

Gilberto Mendonça Teles

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I


Nem a noite desfaz a conveniência
absurda de chorar, nem disfarçamos
no rumor das estrelas camufladas
nossa origem de fogo e primavera.
No vértice do tempo sobrevive
a grande solidão de nossos passos
perdidos, como a chuva, nos extremos
desta terra sem vento e ressonâncias.
Além do acaso, consultamos tímidos
os contornos das nuvens debruçadas
e nos rimos da vida, enquanto pássaros
submersos nestas águas sem naufrágio
e estranhos neste exílio transitório
que os prodígios da noite amadurecem.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível

Vítor Nogueira

Reencontro

É preciso sujarmo-nos de vez em quando.
Só estou a dizer que é preciso sujarmo-nos
de vez em quando. Falo de voltar
para as partes sujas e humanas da cidade.
Falo de um caminho para o reencontro,
cortes suficientemente fundos para deixarem
cicatrizes permanentes. Cerveja, tabaco,
amendoins, falo de todas estas coisas,
sem qualquer ordem em particular.
Acho que o coração ainda bate. O coração
de um homem renascido. Com a cidade
à sua volta, orgulhosa como um castelo.

Vítor Nogueira
in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, & etc

Clarice Lispector

Uma Vida Maior


Estou querendo viver daquilo inicial e primordial que exatamente fez com que certas coisas chegassem ao ponto de aspirar a serem humanas. Estou querendo que eu viva da parte humana mais difícil: que eu viva do germe do amor neutro, pois foi dessa fonte que começou a nascer aquilo que depois foi se distorcendo em sentimentações a tal ponto que o núcleo ficou esmagado em nós mesmos pela pata humana. É um amor muito maior que estou exigindo de mim – é uma vida tão maior que não tem sequer beleza. Estou tendo essa coragem dura que me dói como a carne que se transforma em parto.

Clarice Lispector - 'A Paixão Segundo G.H.'

Carlos Drummond de Andrade

'A hora do cansaço'


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

Poesia


Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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Inéditos - VIII
[14:19 | ]
.

.

"Miragem"



para Olga Savary



Chegou, impressentida e silenciosa,
com uma saudade eslava nos cabelos
e um ritmo de crepúsculo ou de rosa.


Os olhos eram suaves, e eis que ao vê-los,
outra paisagem, fluida, na distância,
sugeria doçuras e desvelos.


No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.


Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida,


Olenka permanece, entre miragens.


(Rio de Janeiro, 1955)



Carlos Drummond de Andrade (Inédito)

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A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.

Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.


Extraído do livro "O amor natural", Editora Record – RJ, 1992, pág. 29.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Luís Maffei

A sal

É qualquer coisa como um gosto
a sal e água sem chuva, um
lugar preciso em que se move
dentro
o papel de vida que se joga quando
as coisas teimam em fazer
algum sentido.
É qualquer coisa como o embaraço de
solstícios, inverno avesso a muitas cores e
próprio a ares que gostam de dizer
alguma coisa muito
muda
muito
ao contrário de dizer sem
dizer nada.
É qualquer coisa assim como algum
branco, como um gosto que se vai da
boca à escrita sem que nada seja
necessariamente
em pauta. É como
qualquer coisa de difícil faina, como se eu
pudesse
aqui
neste lugar sem chuva ou sal ou invernos,
neste lugar de fora de alguns muitos
sítios, arrancar da folha já sem fonte e sem
origem
uma alfazema um relicário
ou
qualquer coisa como um gosto a ti.


Luís Maffei, in Telefunken, Deriva, Abril de 2009, p. 48.

Jorge de Sena

Era tão doce uma verdade entressonhada!

Mas quando, em torno dela, já verdade,
as outras vinham como pétalas
de outras flores que também eram verdade
... mas não entressonhada,
e uma rede florida se estendia
sobre o jardim ansioso da memória,
como era amargo entressonhar verdades!
Na teia tão florida os olhos se perdiam...
Da terra, um vago cheiro a coisa oculta...
E,
mergulhar no oculto,
ou desfolhar a teia?

Jorge de Sena -

Gilberto Mendonça Teles

PLURAL DE NUVENS


Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.
Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.


In Plural das Nuvens

Geraldo Facó Vidigal

Do Pó à Luz

Por um átimo - incandesce a alma humana:
- Ainda que ínfimo, nessa fração de segundo
almas se reconhecem. E nessa vinda ao mundo
físico, no resplandecer desse instante, assombra
espelha assemelha irmana o um e o todo
[ inflama explode espalha-se centelha de Divindade ]
- Vácuo e fogo, sombra e luz, indivíduo e humanidade.

IVO LEDO

"O trapiche"




Queres que guarde para ti o orvalho.

Mas como posso guardar o que se dissolve
ao sol, como o vento, o amor e a morte?
Como guardar os sonhos que sonhamos
enquanto caminhamos acordados
no escuro e sem ninguém ao nosso lado?
E os sussurros de lábios encantados
no outro lado do muro? E a relva que se alastra
na pista do aeródromo? E a mancha aparecida
na casca da manga madura?
Como guardar a brisa sibilante
no convés do navio? E o vôo do pássaro?
E a barca abandonada que atravessa o rio
e pára sob a ponte?
Como e por que guardar um arreio enferrujado
e a cinza de coivara
e a chuva que chovia e o vento que ventava?
A nada guardaremos, nós que somos
o depósito de tudo, a arca e o trapiche.
O orvalho, que é eterno, se evapora
chegada a sua hora. E nossos sonhos
nos guardam fielmente nos seus túmulos.
In: IVO, Lêdo. "Crepúsculo Civil". Página 19. Rio de Janeiro: Record,1990.

Passar é ficar sempre'


Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.

Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.

Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.

Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

Lêdo Ivo

Adriano Nunes

Da descoberta

essa quimera palpável,
esse recanto sombrio,
essa descida precisa,
às pressas, às tais crateras
da satisfação, as sobras
desses vínculos, que são?

esse instante inatingível,
essa fresta na fronteira
do olvido, esse filme-fim,
essa vírgula perdida,
à-toa, na imensidão,
esse conchavo, que são?

e mais além e pra sempre...
é verdade sim: mentimos
de acordo com nossa carne,
esse acúmulo de sonhos,
esse tumulto de tédios,
esse eclipse de sinapses,

e o que foi e ainda mais...
porque pesávamos tempos,
não tínhamos sequer Ítaca
pra regressar, nem saídas
desses labirintos íntimos,
vivíamos a exceção:

o amor-mor, desafiando
o infinito de uma folha
em branco, essa trajetória
do existir, a alegre fonte
mágica, essa descoberta:
o lance da poesia.

Adriano Nunes

Cecilia Meireles


EPIGRAMA N°5

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.

Cecília Meireles

Francis Ponge

Sylvia Plath


EU SOU VERTICAL


Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo
Sugando minerais e amor materno
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso,
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo —
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa,
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.




Sylvia Plath
(28-111-1961)

Helena Kolody

Trilha Batida


Em todos os caminhos,
vestígios de outros passos.

A própria voz se perde
no vozear imenso.

Há muito,alguém pensou
os nossos pensamentos.

Só existe um refúgio,
uma posse,
um domínio defendido:
o profundo de nós mesmos,
singular
e indevassável.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Helberto Helder

Alfredo Rosset

CONFISSÃO
Eu sou a soma do que tentei ser.
Forjado naquilo que não consegui.
Sou desconstruído em mosaicos,
Alvenaria flácida,
Portos distantes dentro do mesmo continente.
Sou sempre busca.
Sou sempre nova etapa.
Sou sempre o que nunca concluo.
Mas, látego, um poeta habita em mim como um grito.

Alfredo Rosset
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CONSEQUENTE

Não sei de onde vim
E para onde vou me inquieta.
Vivo entre a lógica e a loucura.
Daí, poeta.
Alfredo Rosset

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Acordar em mim
Abrir a porta e sair.
Poesia é assim.

Manuela Costa Ribeiro

Enni Puccinelli Orlandi

O nosso imaginário social destinou um lugar subalterno para o silêncio. Há uma ideologia da comunicação, do apagamento do silêncio, muito pronunciada nas sociedades contemporâneas. Isso se expressa pela urgência do dizer e pela multidão de linguagens a que estamos submetidos no cotidiano. Ao mesmo tempo, espera-se que se estejam produzindo signos visíveis (audíveis) o tempo todo. Ilusão de controle pelo que “aparece”: temos de estar emitindo sinais sonoros (dizíveis, visíveis) continuamente.
(…)
Compreender o silêncio não é, pois, atribuir-lhe um sentido metafórico em sua relação com o dizer (“traduzir” o silêncio em palavras), mas conhecer os processos de significação que ele põe em jogo. Conhecer os seus modos de significar.
.

Ferreira Gullar

Off price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado


e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado


- Em alguma parte alguma
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MADRUGADA

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite


a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

FERREIRA GULLAR

Emily Dickinson

Há uma Solidão no Céu

Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.



Tradução de Paulo Mendes Campos

Manoel de Barros

Deus disse

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.

Manoel de Barros
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Miudezas

Percorro todas as tardes um quarteirão de paredes
nuas.
Nuas e sujas de idade e ventos.
Vejo muitos rascunhos de pernas de grilos pregados
nas pedras.
As pedras, entretanto, são mais favoráveias a pernas
de moscas do que de grilos.
Pequenos caracóis deixaram suas casas pregadas
nestas pedras.
E as suas lesmas saíram por aí à procura de outras
paredes.
Asas misgalhadinhas de borboletas tingem de azul
estas pedras.
Uma espécie de gosto por tais miudezas me paralisa.
Caminho todas as tardes por este quarteirões
desertos, é certo.
Mas nunca tenho certeza
Se estou percorrendo o quarteirão deserto
Ou algum deserto em mim.

Manoel de Barros

Wiliam Wordsworth

Thiago de Mello

Miguel Hernandez


Caio F.Abreu


"De vez em quando é necessário a gente se perguntar se dentro de nós é um bom lugar para se viver. Tenho me perguntado isso... e a resposta é sim, sou um bom lugar."

Caio Fernando Abreu

Eu vou magnetizando coisas no inconsciente,

coisas do dia-a-dia,

coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo.

Isto vai formando um todo que acaba

se tornando uma história redonda.

Caio F. Abreu

"Então me vens e me chega e me invades
e me tomas e me pedes e me perdes
e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos
e abres a boca para libertar novas histórias
e outra vez me completo assim, sem urgências,
e me concentro inteiro nas coisas que me contas,
e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim
enquanto me apunhalas com lenta delicadeza
deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida,
que nada devo esperar além dessa máscara colorida,
que me queres assim porque assim que és..."



Caio F. Abreu

Guimarães Rosa

Fernando Pessoa


J.KEATS

Clarice Lispector






Roseana Murray

'Jogo da Verdade'

A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.



in ‘Pêra, Uva ou Maçã’(2005)

Sophia de Mello Breyner Andresen

É esta a hora perfeita em que se cala
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.

(...)
É esta a hora das longas conversas
Das folhas com as folhas unicamente.
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face.

(É esta a hora... -

Paulo Bonfim

O Ar



Em nossa transparência
Os muros da carne.

Em nossa angústia
O vento rebelde.

Em nossa nuvem
O vôo do pássaro.

Em nossa fonte
A água invisível.

Em nossa árvore
A serpente do nada.

Somos o ar
Na torre das palavras.



Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7

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SONETO V


Alquimia do verbo. Em minha mente
Recriam-se palavras na hora vária,
A poesia se torna necessária
E as flores rememoram a semente.

É preciso que exista novamente
A aventura distante e temerária
De em ouro transformar a dor precária
E em nós deixar correr a lava ardente.

Que emoção profunda e mineral
Corra nos veios desta carne astral
E encontre em mim aquilo que procura.

Na paisagem que for, já sou nascido:
Nas formas criarei o elo perdido,
E, em lucidez, serei minha loucura.


Paulo Bomfim
in Sonetos – l.959 –
Som Distante