quarta-feira, 30 de março de 2011

Adriana Monteiro de Barros

As borboletas não são azuis nem o céu é cinzento.



Eu, gaivota que não tenho pouso certo,


Que rasgo o ar em busca de novos céus,


Que me arremesso contra oceanos em troca de alimento,


Sublimo as verdades absolutas,


Afirmo que a liberdade é invisível,


Só a chuva tem cheiro


Todo amor é um universo de sombras e arde!


Mas nem todo amor é vida que pulsa,


Nem toda vida que pulsa é vida


Mas toda vida é curta para ser pequena


E morna.






Adriana Monteiro de Barros

Ruy Espinheira Filho

O ROSTO DA CHUVA




Esse rosto na chuva

te olha.

É uma chuva longa, uma

de muitos anos e viagens

correndo por esse rosto.



Densa como sangue, chove.

No rosto, outros rostos

cintilam,

gotas esparsas.

Assim casas, cidades, nomes,

Animais,

marés do peito abismo.



Esse rosto na chuva

te reflete

com o que a vinda,

vida,

te doou e às vezes inscreveu

tão fundo que lá não desces.



Esse rosto

na chuva que circula

em tuas veias

te punge com mil irresgatáveis

e

áspero cresce

sob a pele suave do teu rosto.



Ruy Espinheira Filho

In ‘Julgado do Vento’ (1979)

Cecília Meireles

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama


(Cecília Meireles)



Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

A que não se recusa a esse final convite,

Em máquinas de adeus, sem tentação de volta.



Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza,

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

Já de horizontes libertada, mas sozinha.



Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,

Dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.



Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

Vão as medidas que separam os abraços,

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas.”

Emily Dickinson

Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo




Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -

Para um Olhar criterioso -

Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -

É a Maioria que

Nisto, como em Tudo, prevalece -

Consente - e és são -

Objecta - és perigoso de imediato -

E acorrentado -



Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"

Tradução de Nuno Júdice

Mário de Sá Carneiro

Mário de Sá Carneiro


 "O Fixador de Instantes" do livro "Céu em Fogo":



(...)



Mas tive que lutar com a realidade demasiada e o excesso das coisas aprendidas.

Residindo largo tempo no solo admirável, eu aprendera alguns locais tão pormenorizadamente que amanhã, longe deles, não os poderia sentir – de tal forma nitidamente os reveria! E não os sentindo à força de os ver, eu não saberia estremecê-los. Por isso, assim como o pintor esfuma a sua tela para a tornar mais emotiva, mais sensível, também eu precisei esfumar a minha cidade, e fui percorrê-la em bairros que desconhecia, nas minhas horas de grande vibração – horas que, com o cenário, pararam, ficaram bem presas para mim, pois durante elas eu oscilei sensações intensas e me perdi em sonhos geniais que, nas minhas obras, mais tarde realizarei.

Bem fixado o instante, igualmente o panorama se deteve, mas esse panorama é-me vago porque nunca mais lá regressei. E pertence à grande cidade, logo, amanhã, eu posso recordá-lo sentindo-o. Não, vendo-o apenas.

Eis como emprestei ao total a bruma que uma obra destas precisa para ser eterna.



Enfim! Enfim! Desfolho rosas, esparzo aromas, tilinto oiro sobre as horas belas que existo, e assim as enlaço!

Riram-se os meus amigos quando a certa rapariguinha indecisa que eu nunca tive dei um colar de safiras e beijos... E que ela me apertara os dedos numa tarde de amor, e eu precisava guardar a luz dessa tarde, a sombra daqueles olhos mordorados, a frescura dos seus dedos – todo o aroma rutilante da hora que fugia...

Gente sem alma! Gente sem alma!

Tantas coisas da minha vida que ninguém compreende, tantas, são apenas utensílios da minha arte... Assim as tristes cartas da dançarina nua.



Ai, como eu me envaideço, como deliro das minhas estátuas!, como sou rico ao percorrê-las nas galerias infindáveis!... Porque eu tenho um passado, sim, eu tenho o passado!

Fixei a hora, guardei-a, posso tornar a vê-la.

Haverá triunfo mais alto?



(...)

Mário de Sá-Carneiro

QUASE


Mário de Sá-Carneiro



Um pouco mais de sol — eu era brasa.

Um pouco mais de azul — eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...



Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador d'espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho — ó dor! — quase vivido...



Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim — quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!



De tudo houve um começo... e tudo errou...

— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... —

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou...



Momentos de alma que desbaratei...

Templos aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...



Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...



Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi..

terça-feira, 29 de março de 2011

JOÃO GILBERTO NOLL

A cada quarteirão ele vibrava mais. “Sem metas”, como apregoava seu professor de estética, na época em que esse terreno suscitava sérias digressões. A cada quarteirão conhecia novo ânimo. Fôlego para mil quarteirões, se aquela praia os possuísse. Vivia uma estrada solitária. “Para descansar”, repetia. Encontraria um jeito de não mais sair dali. “Fazendo o quê?”, uma voz inclusa perguntava. Ele parou. Olhou as mãos, o corpo. “Sei sim, que dessa pele tão cedo não sairei!” Parecia um hino súbito. Divertiu-se, encenou uma risada. Voltou a correr. E não foi mais visto.




NOLL, João Gilberto. Mínimos, múltiplos, comuns. São Paulo: Francis, 2003. p.262.