terça-feira, 24 de março de 2009

Después del amor - Miguel Hernández


Después del amor

No pudimos ser. La tierra
no pudo tanto. No somos
cuanto se propuso el sol
en un anhelo remoto.
Un pie se acerca a lo claro,
en lo oscuro insiste el otro.
Porque el amor no es perpetuo
en nadie, ni en mí tampoco.


El odio aguarda un instante
dentro del carbón más hondo.
Rojo es el odio y nutrido.
El amor, pálido y solo.
Cansado de odiar, te amo.
Cansado de amar, te odio.
Llueve tiempo, llueve tiempo.
Y un día triste entre todos,
triste por toda la tierra,
triste desde mí hasta el lobo,
dormimos y despertamos
con un tigre entre los ojos.
Piedras, hombres como piedras,
duros y plenos de encono,
chocan en el aire, donde
chocan las piedras de pronto.
Soledades que hoy rechazan
y ayer juntaban sus rostros.
Soledades que en el beso
guardan el rugido sordo.
Soledades, para siempre.
Soledades sin apoyo.
Cuerpos como un mar voraz
entrechocando, furioso.
Solitariamente atados
el amor, por el odio.
Por las venas surgen hombres,
cruzan las ciudades, sordos.
En el corazón arraiga
Solitariamente todo.
Huellas sin campaña quedan
como en el agua, en el fondo.
Sólo una voz, a lo lejos,
siempre a lo lejos la oigo,
acompaña y hace ir-
igual que el cuello a los hombros.
Sólo una voz me arrebata
este armazón espinoso
de vello retrocedido
y erizado que, me pongo.
Los secos vientos no pueden
secar los mares jugosos.
Y el corazón permanece
fresco en su cárcel de agosto,
porque esa voz es el alma
más tierna de los arroyos.
"Mi fiel: me acuerdo de ti
después del sol y del polvo,
antes de la misma luna,
tumba de un sueño amoroso."
Amor: aleja mi ser
de sus primeros escombros,
y edificándome, dicta
una verdad como un soplo.
Después del amor, la tierra.
Después de la tierra, todo.

Miguel Hernández

Suite No. 1 in G Major: Prelude - Erling Blöndal Bengtsson

Para terminar uma história de amor - Ana Cláudia Saldanha Jácomo.




É preciso coragem para terminar uma história de amor. Coragem para lidar com a dor e ainda assim acreditar na própria habilidade para seguir confiante pela vida, mesmo com uma cicatriz a mais. Coragem para chorar muito, chorar tudo, e ainda assim crer no tempo do sorriso novo. Coragem para dilacerar, a sangue frio, sem promessa de anestésico, o sonho acalentado de ter aquele bem-querer ao nosso lado. O sonho de, ao final do dia, por incontáveis dias, aconchegar-se no abraço bom do outro, maravilhado por sentir que não existe no mundo outra maneira de se dormir tão gostoso. O sonho de acordar junto nas manhãs em que se acorda ensolarado e naquelas em que se acorda chuvoso, mas acordar pertinho. O sonho de ver os cabelos embranquecerem, as mãos envelhecerem, a pele tornar-se cada vez menos viçosa, e, ainda assim, enamorar-se novamente a cada outro olhar.

É preciso coragem para terminar uma história de amor. Coragem para atravessar tempestades terríveis, desertos intensos, noites imensas e, ainda assim, seguir. Mesmo doendo. Mesmo cansando. Coragem para aquietar o próprio coração e lhe dizer que vai passar, quando, na verdade, a gente não tem a mínima idéia de quando nem se vai. Coragem para continuar habitando um corpo que é um campo minado, onde qualquer movimento faz explodir a memória dos sentidos, e com ela o desejo. Coragem para continuar olhando para a vida com olhos saudosos que teimam em encontrar o amado nas coisas mais improváveis e nos momentos mais imprevistos.

É preciso coragem para terminar uma história de amor. Coragem para ouvir do outro, com ou sem palavras, que o que demos foi pouco, quando o tempo todo a gente sentia dar o melhor. Coragem para se desapegar dos códigos, dos hábitos, dos truques inventados. Da ludicidade. Das seduções. Do texto. Da trilha sonora. Dos efeitos especiais. Da intimidade. Coragem para agradecer mais o encontro do que lamentá-lo. Para bendizê-lo. Para abençoá-lo. Para não se tornar mais um pessimista comum que depois de se deliciar com o banquete, afasta-se da mesa reclamando do tempero.

É preciso coragem para terminar uma história de amor. E por mais que machuque, entristeça e dilacere, chega um momento em que a gente sabe que não há outra alternativa, senão ter coragem para baixar as armas cansadas. Para anunciar o cessar-fogo. Para hastear bandeira branca. Para parar de brincar de vítima e algoz. De gato e rato. De queda de braço. É preciso coragem para retomar a própria vida. Para reaprender a estar consigo mesmo. Para se permitir começar tudo de novo, quando o novo vier. Para não se fechar o coração à perspectiva de que aconteça essa que é uma das melhores dádivas: amar e ser amado, olhar e ser olhado, ao mesmo tempo.

Amar é um desafio dos grandes e dos bons. Pede que a gente cresça junto e leve luz a um monte de sombras. Às vezes, a gente consegue; outras, não. Uma história de amor é coragem de dois.
Para terminar uma história de amor - Ana Cláudia Saldanha Jácomo.

Menotti Del Picchia


Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.

Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.

Canta!
Canta para conservar uma ilusão de festa e de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?

Que importa a rota.
Voa e canta, enquanto resistirem as asas.

(Menotti Del Picchia)

Dalai Lama


O que mais nos incomoda é ver nossos sonhos frustrados.
Mas permanecer no desânimo não ajuda em nada
para a concretização desses sonhos.
Se ficamos assim, nem vamos em busca dos nossos sonhos,
nem recuperamos o bom humor!
Este estado de confusão, propício ao crescimento da ira, é muito perigoso.
Temos de nos esforçar e não permitir que a nossa serenidade seja perturbada.
Quer estejamos vivenciando um grande sofrimento,
ou já o tenhamos experimentado,
não há razão para alimentarmos o sentimento de infelicidade.
Dalai Lama

CREPUSCULAR - José Lannes


'CREPUSCULAR'

Crepúsculo da tarde, esta agonia
de cores meigas e de luz magoada
não a compreende a mente rude e fria,
onde a ilusão e a dor não têm pousada.

Mas à alma sonhadora e amargurada
bem familiar é a tua nostalgia:
- Efêmera saudade eternizada
na velhice infantil de cada dia ...

Cada dia a morrer eternamente,
é como o sol que agora já não arde
esta minha alegria descontente.

Ante o cair da noite muda e calma,
é como tu, crepúsculo da tarde,
sempre triste gêmeo de minha alma ...

José Lannes
in Candeia – l.948.

Canto de Quase Inverno -A. Severo Netto


Canto de Quase Inverno

Bêbado de silêncio e de distância
de tempo pré-velhice e pós-infância
diagonalizei-me em desvario
Fui de mim mesmo alga e cogumelo
transfixando amarra, laço e elo
na plenicarne vasta do vazio

Sufocado de treva e desencanto
de tempo pré-raiz e pós-espanto
verticalizei-me em desatino
Fui de mim mesmo início, fim e meio
trajado de amarelo desnorteio
louco sextante sem mostrar destino

Cansado de aclive e de abandono
de tempo pré-inverno e pós-outono
horizontalizei-me em desconforto
Fui de mim mesmo imagem, sombra e medo
despí-me de alarde e de segredo
colhí as velas...
...e arribei ao porto.

A. Severo Netto (Augusto 1976)