segunda-feira, 24 de maio de 2010

Marcel Proust

A Melhor Parte da Nossa Memória está Fora de Nós

As recordações em amor não constituem uma excepção às leis gerais da memória, também ela regida pelas leis do hábito. Como esta enfraquece tudo, o que mais nos faz lembrar uma pessoa é justamente aquilo que havíamos esquecido por ser insignificante e a que assim devolvemos toda a sua força.A melhor parte da nossa memória está deste modo fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontremos aquilo que a nossa inteligência pusera de parte, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando se esgotam todas as outras, sabe ainda fazer-nos chorar.

Marcel Proust, in 'A Fugitiva'

Sophia de Mello Breyner Andresen

É esta a hora perfeita em que se cala
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.

(...)
É esta a hora das longas conversas
Das folhas com as folhas unicamente.
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face.

(É esta a hora... - Sophia de Mello Breyner Andresen

Alphonsus de Guimaraens Filho

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nó, 1984

DOS POEMAS

Não de vento os formei, mas do meu barro.
Não lhes dei sentimento, mas meu sangue.
Acolhe-os, pois, ainda que sejam turvo
rio a cruzar as terras que erigiste
no teu sonho maior, mesmo que sejam
somente um vago eco, um arfar penoso
de barro, solidão, de cinza e sangue.


Alphonsus de Guimaraens Filho

José Humberto

O absoluto só me vem em pleno silêncio puro.José Humberto
(...)

Diogo - Filho da Lua

Libertas Quae Sera Tamen

Libertina mãe parida de aço
Que leva nos braços
O sangue transgressor
Faz-se de santa
De fogo
Nas ventas
De seu próprio clamor

Liberdade ainda espera
No esguio frio da noite
E inveja a lua
Por ser longe
Por ser clara
Por ser mãe
E por ser à toa...

Deixa cantar os gemidos de adeus
Deixa em paz
A surdina
A cantiga
E a prece de um ateu

Libertina tinta
Ainda tardia
Que pinta os muros
Com olhares seus.(Diogo)


Que tange
Horizontes tão distantes
E faz sombra
ao tempo passado
deixa as cicatrizes secarem ao vento
deixa em silêncio
a vergasta
a chibata
por ser dorida
por ser mágoa
a longa noite,o adeus
e a liberdade tardia...
Dissoluta tinta,
das cores desregrada
Pintou-lhes as faces,
ergueu-se os estandartes
as trêmulas e tardias insígnias...
Só a história irá apontar,se houveram vencedores
Ou se fomos todos,
Paridos do ventre impostor...
Ntakeshi

Aline de Mello Brandão

FÊNIX / ALQUIMIA
Aline de Mello Brandão


Renascida das cinzas dos vestígios das horas,
no ensejo tão exato das palavras
da poesia andarilha e descalça,
perfumei os caminhos
onde bebi lágrimas em taças de ausências.
Na barra da saia amarrei a reza dos poetas sem medo
recolhi lampejos dos versos que salvam
e escolhendo as cores cuidadosamente,
preparei a transparência inteira desse manto
que me recobre a alma.

Carlos Nejar

Metafísica


Não busco a hierarquia
entre a terra e o húmus:
prefiro a transcendência
do vento,
cumprindo-se apenas,
sem dividendos
no pensamento.

Para mim
floresce
a teoria de viver.
Os momentos são inteiros
na casa dos arreios.

O tempo, Deus, a alma
couberam
nos meus cadernos de escola.
Cresci
e Deus se transformou
na religião de estar aqui,
na relação
há muito consentida
de andar rente ao chão
junto às árvores, o ar,
sem alvará
para morar na vida.

Carlos Nejar
in Casa dos Arreios